Brasil 2050 - Sempre há um recomeço - Capítulo II


CAPÍTULO II

A SAUDADE QUE A ANA SENTE da filha faz-lhe lembrar de uma época onde tudo que parecia ruim, na verdade era um singelo percalço da realidade de um belo paraíso. Ela volta ao dia do aniversário de um ano de vida da filhota. A família toda reunida, alegre, cantando e festejando a vida da pequena Maria Elisa. A menina rir de uma forma de agradecimento a todos pela lembrança, celebração.
            De repente, um a um vai perdendo a cor, ficando invisível, logo, desaparecem. A voz da filha ecoava por todo o canto da casa. Ana Guerra sai correndo desesperada em busca da filha, grita “Lisa, meu amor”, grita “Lisa, onde você está? ”. Ela passa a ouvir o telhado trincando e, em seguida, vê-lo desabar em alguns vãos da casa. A tensão toma conta da mãe. Os passos seguintes são as paredes virem a baixo, o chão passa a afundar. A mulher, que busca desesperadamente pela filha, se ver sem saída e é sugada por um imenso buraco que se abre no chão do quarto da garotinha.
            Ana acorda aos berros e é acalentada por Nathan. Tudo não passava de um terrível pesadelo, com um pé na realidade. Afinal, Maria Elisa fora sequestrada pelo ditador que está no poder supremo do país: Brasil.
            O dia começa a acordar. O sol raia e lembra a todos que eles devem começar a batalhar por mais um dia de vida. Pois, os dias desses sobreviventes fugitivos do governo não são nada fácies.

O ANO DE 2015 É A PARTIDA do segundo governo da presidente Dilma Rousseff com muitas dificuldades. A crise climática toma conta da região sudeste e nordeste do país. A economia do nosso Brasil não anda nada bem. O dólar está cada dia mais caro, os juros estão subindo e a inflação parece ser um monstro indomável. Além da corrupção histórica na Petrobras. É uma crise política, mais que aparente, massacrante para a nossa nação.
            Logo, as manifestações populares tomam conta do país, não como as de 2013, mas tão apreensivas e, de certa forma, uma pedra no sapato do governo. Desta vez a população grita e pede o impeachment da presidenta do Brasil. Todos esses acontecimentos foram fundamentais para explicar tudo que os brasileiros passaram a viver em 2050. Principalmente, após a divulgação da lista dos políticos envolvidos da lava jato. Especificamente por um nome, um político que um dia foi o representante idealista e peça-chave para levar as ruas os “caras pintadas”, no então grito de impeachment de Fernando Collor de Mello.
            Quem um dia lutou ao lado do povo para tirar do poder um presidente corrupto, passa a ser um político corrupto também. Não sei se o fato histórico se faz presente ou o presente faz-se um fato histórico. O que realmente importa é que um ativista político pode ser um político corrupto. Será que todos os políticos são corruptores? São influenciados? São manipulados? Ou a ocasião faz-se o acaso? Qualquer pergunta pode ser feita, mas a resposta exata só quem está no poder pode fornecer-nos.
            E a cada dia que ligamos a tevê ou abrimos as páginas dos jornais ou revistas, deparamo-nos com as denúncias de corrupções. O protagonista da vez é o presidente da câmara Eduardo Cunha. Este utiliza de todo o poderio para se beneficiar. Enquanto os brasileiros se pergunta: onde está a ética do conselho de ética? Onde está a lei? A moral e o bom costume.
            O que nos resta é um mar de lama a nos matar. Não aquele que destruiu com o Rio Doce em Mariana – MG, o lamaçal de que me refiro, é o da corrupção política.

ANA E OS COMPONENTES DO GRUPO de sobreviventes e fugitivos vão seguindo viagem entre os destroços da cidade de São Paulo. A Avenida Paulista não é mais majestosa como antes. Quem um dia viveu bons momentos na virada de qualquer ano, e que muitos brasileiros devem se lembrar nitidamente da beleza, grandeza e da importância dessa avenida para a cidade, que hoje se encontra sem vida, em leito de morte e desolada do resto do mundo.
            Nathan orienta o grupo para ter cuidado onde pisa, afinal pode haver algum explosivo, e a sua volta, para não serem surpreendido por homens do exercício do tirano. Vitória Régia é a melhor soldada do grupo, sempre em alerta e com uma audição aguçadíssima, chama a atenção de Nathan para uma possível movimentação a frente. O líder pede para todos buscarem abrigo em volta. E assim os subordinados fazem.
            Todos estão entocados em construções semidestruídas, quando veem um grupo de soldados tiranos passarem. Eles estão sempre em busca de desertores. São seis homens e, bem atrás da tropa, um prisioneiro está com os pés e as mãos acorrentados. Ele é conduzido por um dos soldados que pressiona a ponta de um fuzil no meio das costas do preso.
            Vitória cochicha com Nathan, elaborando um plano para acabar com a tropa antagonista.
            O líder acata a proposta da colaboradora e faz um sinal com a mão direita, avisando aos demais companheiros que é o momento de atacar o inimigo. E todos o obedecem.
            Os entocados passam a atirar simultaneamente e os inimigos são pegos de surpresas. Alguns são alvejados e ficam sobre o chão agonizando em sangue. Outros vão em busca de abrigo e contra-ataca. O prisioneiro se desespera entre o fogo cruzado. Nesse momento, Vitória Régia traça uma linha de salvação em sua cabeça para salvar a vítima do massacre.
            Não pensa mais do que dois minutos, sai em disparada para realizar o seu propósito.
            Muitos ficam incrédulo com o que os seus olhos veem. Ana Guerra fica em torcida mental para que a arqui-inimiga se salve. Há momentos que ela fecha os olhos, outros arregalam-nos, outros deixam-nos parcialmente fechados. A respiração fica ofegante, moderada, quase inativa. O coração é uma bateria de escola de samba. São tantas emoções que ela não sabe como controlá-las. Mas sua mão direita está firme e certeira segurando com muita força e fé uma medalhinha, que se encontra acoplada em uma correntinha presa em seu pescoço.
            VR corre curvada em direção ao prisioneiro que se encontra desesperado com o zumbido dos projéteis de fuzis. A guerreira quase é atingida, mas joga-se no chão antes de ter alguma parte de seu corpo perfurada. E consegue atingir dois soldados inimigos, um é atingido no meio da testa, o outro tem o coração perfurado.
            A moça salva o preso. Vai saindo com ele do campo de batalha, quando o homem é atingido por um projétil balístico. As suas forças fogem-lhe e com o impacto tomba para frente, soltando-se dos braços de VR. Ela o levanta e o conduz a um lugar seguro.
            Um soldado tirano consegue escapar e os demais foram mortos.
           
NATHAN VAI ENFURECIDO em direção a VR. Querendo explicações sobre o seu ato suicida para salvar um desconhecido.
            - Como você pode se arriscar assim Vitória? – Grita.
            - Fiz o que eu achava que era o certo. Não poderia deixá-lo morrer ali no meio do fogo cruzado, sem nenhuma possibilidade. – Retruca.
            - Você foi muito imprudente.
            - Eu sei. – Assentiu.
            - Como ele está? – Procura saber.
            - Ele foi atingido. O Romero está tentado...
            - Sei. Vamos ver de quem se trata.
            Nathan sai em direção ao local em que o médico Romero cuida do paciente ferido em batalha. E VR o segue.

ANA ESTÁ AJUDANDO O MÉDICO ROMERO a cuidar do desconhecido. Quando Nathan e VR adentram ao recinto. Ela fica de longe observando o casal conversar com Romero e no exato momento que Vitória Régia se afasta dos homens. Ana se aproxima dela.
            - Você mostrou que é uma verdadeira guerreia. – Elogia.
            - Valeu! Mas não preciso dos seus elogios. – Responde rispidamente.
            - Só queria saber o que lhe fiz? Por que essa raiva toda de mim? Acho muito controverso a sua atitude comigo, depois do que fez hoje.
            - Não preciso dar satisfação a você ou preciso? – Altera a voz.
            - Estou querendo apenas conversar contigo. Será que podemos ser civilizadas?
            - Falou a riquinha, dondoquinha. – Bate palmas em volta de Ana – A madame quer um pouco de chá? Roscas? Não! Um cafezinho com pão e manteiga.
            Aproxima-se de Ana e a encara.
            - Não confio em você. Sei que você vai nos colocar na maior roubada de nossa vida. Se não fosse o Nathan...
            - Vitória? – Diz Nathan.
            VR afasta-se de Ana e vai saindo quando Nathan fala.
            - VR, não quero esse tipo de comportamento entre a gente. Trate-se de jogar fora essa raiva que você sente por Ana.
            Sem voltar-se para Nathan, ela o ouve e sai em silêncio.
            - Ana, Dr. Romero está precisando de você.
            - Vou lá. – Sai.

A NOITE FAZ-SE PRESENTE mais uma vez. A escuridão parece ser uma gigante inimiga do grupo de sobreviventes. Hoje eles conseguiram mais uma batalha. Nenhum membro foi abatido, conseguiram combater alguns inimigos, mas ter deixado um escapar, foi um erro que pode custar muito caro para eles. Pois, agora o grupo ficará na mira do tirano. E como todos do grupo bem sabem, o “dono” do Brasil não deixará passar em branco essa afronta.
            Nathan está de vigia enquanto todos dormem. Preciso pensar em uma forma de salvar todos. Agora somos alvos fáceis. O maldito ditador vai nos caçar sem dor e piedade. Ele deixa os seus pensamentos surgirem em sua mente cansada.  

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Capítulo I
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