Brasil 2050 - Sempre há um recomeço


CAPÍTULO I

EM 2050, ANA GUERRA TORRES REVELA À SUA FILHA a terrível história da família Guerra Torres, assim como, a destruição do Brasil. A matriarca, hoje com 36 anos, não vivenciou tudo que conta, mas sabe de detalhes minuciosos, todos contados por sua tia ativista Simone Guerra.
            Tudo começou em 2013. Simone e amigos reuniram-se e traçaram o maior plano da vida daqueles jovens. No início, tudo era para mudar o Brasil. Não sabiam eles que realmente iriam transformar o país e que as palavras de ordem, que eles verbalizavam no meio da multidão, seriam apenas palavras ao vento.
            Milhares de pessoas se juntaram ao grupo e vomitaram em uma única e grave voz, no meio das ruas das grandes cidades do país, todos os seus repúdios contra as barbares governamentais, eram verbos contra a corrupção, a falta de investimentos na segurança, saúde e educação pública. E tudo foi muito bem além do que a multidão esperava.
            Uma batalha corpo a corpo, com armas e muitas explosões de coquetel molotov, balas de borrachas, pedras e muita quebradeira dos prédios públicos e privados.
            O governo tentou reverter esse quadro caótico das cidades brasileiras. A presidente do país chegou a apoiar os manifestos pacíficos e atender as reivindicações da população. O povo brasileiro passou a ser contra a Copa do Mundo 2014 no país. Preferiam que os investimentos fossem nos setores públicos para melhor atender à população carente.
            No ano seguinte, 2014, as coisas ficaram mais calmas, a copa até que aconteceu tranquilamente. Triste mesmo foi a lesão sofrida pelo grande jogador da nossa seleção, Neymar Júnior. Por conseguinte, a derrota da seleção canarinho de 7X1 para a Alemanha.
            Enquanto a bola rolava no Maracanã, em uma grande final entre a Argentina e Alemanha, o grupo de ativistas liderado por Simone tentava causar o terror nas proximidades do estádio. A ação “junho negro” foi frustrada e membros do grupo foram presos.
            A prisão de membros do Black Bloc foi o estopim para uma série de manifestos violentos e destruidores. O Brasil passou a vivenciar uma quase “guerra civil”. Algo que o povo desta terra maravilhosa só tinha visto antes nas notícias internacionais nas páginas dos jornais e na caixa luminosa dos telejornais.
            A guerra não tinha mais limites. Não lutavam mais por benefícios para a população. Não era mais pela administração do PT, considerada péssima. Era por motivos pessoas e cruéis de loucos, de pessoas que só pensavam em si.
            Anos foram passando. Nem a eleição presidencial de 2014 foi suficiente para resolver os problemas. Até porque o PT iria continuar mais quatro anos no comando do país. A presidente foi reeleita por mais de 51% dos votos válidos dos brasileiros, foram 53 milhões de votos a favor do contínuo governo petista.
            O país do futebol, das belas praias, do carnaval, de um povo acolhedor e feliz, acima de qualquer coisa, foi acabando mediante as ações de pessoas que viram na oposição a um partido político uma oportunidade de colocar em prática planos terroristas de ditadores vis. Simone achava que poderia ser vista pelos brasileiros como a renovação, como uma pessoa que ia colocar o país em uma nova rota, mas as ações violentas não levam ninguém a nenhum lugar. Violência não transforma um país para melhor, mas à decadência.

MARIA ELISA OLHA PARA MÃE, com os olhos cheios d'água, incrédula. Ela não queria acreditar que um membro de sua família lhe proporcionou um futuro tão horrível. Pois o Brasil hoje é um país decadente, um ambiente inabitável.
            A menina levanta-se do chão de barro batido de uma construção abandonada, no centro da cidade de São Paulo e caminha até uma abertura na parede, olha para fora do prédio como se sentisse falta de uma paisagem majestosa. Os seus olhos lacrimejando veem uma destruição sem fim. Carros em chamas; ruas sujas, cheias de lixos e com uma catinga terrível de podridão. Esse mau cheiro vem dos corpos em decomposição e dos carbonizados recentemente que estão no meio das vias públicas.
            “Eu daria tudo pra ter nascido em um mundo bonito. Que eu pudesse olhar o céu e apreciá-lo horas e horas. Que eu tivesse acesso livre às ruas. Pudesse pegar um ônibus, trem, metrô pra cruzar a cidade. Ir de um lado pra o outro. Queria estar naquela paisagem da folhinha que eu vi dias atrás naquela casa que repousamos há dois dias. Brincar com meninos e meninas da minha idade, correr na areia da praia. Tomar banho de mar. Ouvir o som do vento e acordar com o cantar dos pássaros. Mas tudo isso são apenas desejos, sonhos. Tudo isso só posso ver em vídeos antigos nas telas dos cinemas destruídos por bombardeios. Queria dormir em uma cama macia e acordar em um paraíso. ”
            A mãe caiu em pranto ao ouvir as palavras da filha. Fecha os olhos, abaixa a cabeça e se volta para dentro de si, quando ouve o grito agudo e longínquo da filha. Levanta-se do chão e sai correndo em direção ao buraco na parede, ultrapassa-o e se põe a correr pelo terreno hostil. E, em seguida, o que os seus olhos veem é sua filha sendo posta dentro de uma van por um homem grande, de cabelos negros bagunçados, vestido com roupas do exército brasileiro. Ele entra no veículo e o compassa dá a partida. Ana Guerra corre enlouquecida atrás do veículo, gritando o nome da filha, chorando e quase sem força, tenta continuar, mesmo sem sucesso, até cair no asfalto desgastado. Sem entender o que aconteceu, continuar no chão chorando e verbalizando: Maria Elisa... até que sua voz é abafada por outra, não uma suave como a dela, mas grave e máscula.
            Nathan Otonael Simas estende a mão direita para Ana. Mesmo desconfiada, ela aceita a ajuda do desconhecido. É levantada por ele e consolada em seu ombro. A mulher está tão abalada que não tem nenhuma reação repudiante as ações do homem misterioso. Este cara, até então, cavalheiro, fala baixinho e suave, apesar da voz grave.
            “Calma! Não se preocupe que iremos encontrar a sua filha. Antes que ela sofra algum mal. ”
            Ele a conduz pela via em direção contraria da van. Nathan Otonael leva-a para onde estão os demais companheiros. Em um galpão próximo do evento posteriormente ocorrido, está um grupo composto por oito pessoas, cinco homens e três mulheres. Ana agora fazia parte deste grupo de refugiados, de fugitivos da Milícia Black Bloc. Os dez traçam um plano de resgate da pequena Maria Elisa das mãos da Milícia.

ANA SENTA-SE EM VOLTA DA FOGUEIRA, onde todos estão, para enfrentar o frio de uma noite chuvosa. Apesar do ambiente, o grupo está feliz, contando histórias, cantarolando e fazendo piada com a própria desgraça de vida que eleva.
            Vitória Régia passa quase que todo o tempo observando as reações de Ana Guerra que não está muito animada. Ainda sofre a perda da filha; afinal, Maria Elisa foi raptada a menos de 24 horas. Portanto, não há motivos para cantar, sorrir e contar piadas sem graças, assim como todos estão fazendo. Talvez eles não tenham sofrido nada parecido com o que ela está passando, apesar da situação calamitosa que todos estão vivendo ali.
            Vitória se cansa de apenas observar, levanta-se, caminha até Ana e se senta ao seu lado. Fica calada por um instante. Espera por uma boa oportunidade para falar algo. E essa oportunidade chega antes do esperado por ela. Todos se calam, ficam em silêncio apenas comendo a pouca comida enlatada que encontraram em um Hipermercado destruído pelos ataques da milícia.
- Então, Ana, qual é a sua história? E por que a milícia tem interesse em sua filha? Porque até onde a gente sabe, eles não perdoam ninguém, quando encontra um verme que seja, eles matam sem piedade. Mas com sua querida filha foi diferente. Por que será, hein? - Interroga com um ar de superioridade e deboche.
-      Não sei te dizer o que queres saber. Só sei que a Maria Elisa foi raptada e eu a quero de volta aqui comigo. – Retruca. 
-      Sinto que você está escondendo alguma coisa bem cabeluda! - Exclama Vitória.
-      Se você acha. O que eu posso fazer? - Pergunta debochando – Talvez eu possa abrir o jogo com você. Mas qual jogo? De pôquer?  - Rir contida.
-       Muito engraçada! - Exclama furiosa – Que tal começar dizendo quem é você?! - Levanta-se – Porque aqui todo mundo conhece a história um do outro. Sabe de onde cada um veio. Mas você, quem é? De onde veio? Para onde ia? O que fazia escondida naquele lugar? Por que sua filha foi sequestrada pela milícia? Por que ela estava sozinha? Por que você não foi morta ou levada também? – Grita enquanto encara a “rival”.
-       Só essas perguntas? Não há mais nenhuma a fazer? – Pergunta com ar de deboche.
-       Não! Comece a falar – Vai até Ana e a encara novamente.
-       Não precisa ficar assim me encarando, desejando me beijar. Até porque não curto beijar mulheres, por mais que ela tenha esse jeitão de machão como você tem – Ironiza olhando no olho da rival.
-       Que gracinha! - Ergue-se a cabeça e se põe ereta – senhores, temos aqui uma piadista. Que bom! Não teremos mais noites de tédio. - Vai até uma cadeira e se senta fixando Ana.
-       Muito bom – Assentiu – Bom! Meu nome é Ana Guerra Torres. Eu e minha filha estávamos...
-       Você é da família da ativista Simone Guerra? – Interrompe-a Gutemberg Linhares.
            Os demais começam a falar e um ar de desprezo por Ana toma conta do recinto. Até que o líder do grupo chega ao local e põe ordem na situação.
-       Os senhores podem parar de falar assim? - Pede Nathan Otonael com uma voz grave e alta.
-       Mas, Nathan, você não ouviu o que ela acabou de falar? - Interroga-o um ancião.
-       Meu querido Valério Dias, eu ouvi sim e confesso a você e a todos que já tinha consciência da verdadeira identidade e história dessa mulher. Afinal, meu tio Virgílio Simas também fez parte do grupo de ativistas que desencadeou toda essa desgraça que hoje vivemos. Meu tio foi da cúpula de um dos grupos que lideraram manifestos contra a corrupção, aumento da passagem dos ônibus e reivindicou melhorias no setor público. Assim como a ativista Simone Guerra. Ele foi conhecido como o deus do trovão, pois fazia os manifestantes “trovejarem” em vozes de ordem e tinha a capacidade de incentiva jovens a pôr o terror contra os homens da lei, os policiais. Ela foi conhecida como a dama da guerra. A guerrilheira urbana. A mulher que foi capaz de comandar mais de 100 mil manifestantes em prol de um ideal antipolítico.
-      Sabendo de tudo isso, você ainda aceitou essa, aí? - Diz Vitória Régia.
-      Por que não? Assim como ela, eu também tenho um pé ou outros membros do meu corpo nessa lama toda que devastou o Brasil. Que nos conduziu a um estado de miséria e de calamidade pública universal. Por hoje já chega. Vamos todos dormir que amanhã é um novo dia. Dia de batalharmos por mais algumas horas de liberdade. Vamos! – Grita – Todos circulando e buscando os seus lugares. Tenham bons sonhos. É o que ainda nos resta! E você Vitória pode assumir o seu posto. Chegou à sua vez de ficar de guarda. Pois, eu preciso descansar um pouco. Até mais!
            Vitória sai em silêncio em direção ao posto de vigilância. Enquanto os demais vão dormir. Ana levanta-se e tenta falar com Nathan, tenta agradecê-lo por tudo, mas ele simplesmente acena com a mão direita que precisa ir se deitar. A moça volta-se a sentasse em um pedaço de coluna, tira a foto da garota do bolso da sua calça e a contempla com saudade.
            - Minha pequena, não se preocupe que a mamãe vai te encontrar – Deita-se.

            As lágrimas caem do seu rosto em encontro ao chão batido e gélido.
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