Razão e Emoção, do amor ao ódio - Capítulo VII



CAPÍTULO VII
Em nome do amor

O AMOR À VISTA DE MUITO É UMA INCÓGNITA, para outros é tão natural e singelo, mas também incondicional, que chega a fazer morada no peito, a ser parte da sua pele, um semblante da sua alma.
            O amor pode ser um sentimento inexplicável, sendo abstrato, não tem como você apalpar, já que o intangível só pode ser visto através das ações de outrem. É através de ação que Yasmim vai constatar a força do amor. Após tudo que acabara de sofrer, pode-se dizer que é justo essa demonstração de amor incondicional por parte dos seus pais, principalmente de Antony.
            Não é preciso apenas o sangue correr nas veias de um e do outro, é necessário amar acima de tudo. O amor é um sentimento tão real, universal, que podemos afirmar que ele é único, intransferível e distinto. Ademais, é amar sem ver a quem. Simplesmente amor.
            Quando Antony e Gustavo chegam em casa, encontram Yasmim sentada no sofá da sala, toda encolhida e em lágrimas. Em sua mente só passa o horror que acabara de vivenciar nas garras do primo safado. O flash do momento em que o gatilho da arma é disparado, soa em sua cabeça como uma metralhadora. Vai e vem sem parar.
             Gustavo é o primeiro a perceber que há algo de errado com a filha. Senta-se ao seu lado, abraça-a e lhe pergunta o que aconteceu.
            A moça não consegue expressar de imediato, apenas se aconchega nos braços quentes do seu pai.
            Antony ao ver a cena, coloca as chaves e a carteira de documentos sobre uma mesa próxima ao assento onde os outros membros da família estão e caminha até eles. Senta-se ao lado dos dois e os abraça. Sem reações e sem palavras, a imagem congela-se por alguns minutos. Até que Antony resolve quebrar o silêncio e pergunta à filha o porquê da sua tristeza e lágrimas.
            A menina se ajeita no sofá, enxuga as lágrimas, levanta-se e pede para eles a acompanharem.
            Os três saem em direção as escadas, sobre degrau por degrau até se encontrarem defronte à porta do quarto de Yasmim. Esta hesita de imediato em abrir a porta, mas enfrenta os seus pesadelos e adentra ao recito na companhia dos seus pais.
            Eles veem Ronny deitado sobre um leito cheio de sangue. Os lençóis brancos têm partes tingidas de vermelho encarnado. O homem encontra-se sem vida. No chão um travesseiro perfurado. O que é visto, é um quadro de uma pintura real.
            Yasmim fica chorando de cócaras próxima à porta do quarto. Os pais ficam incrédulos com o que presenciam. Gustavo não aguenta enxergar a morbidez daquela exposição, sai do quarto e fica encostado na parede do lado de fora do local do crime.
            Antony caminha até a filha, levanta-a e a conduz para fora dali. Estando fora, ela é amparada também por Gustavo e os três vão em direção ao quarto do casal. Chegando, sentam-se sobre a cama. Começa-se, portanto, o interrogatório.
            - Querida, eu preciso saber o que aconteceu naquele quarto. – Levanta-se e fica caminhando de um lado para o outro. – Como isso aconteceu? Quem fez aquilo com o Ronny? Meu Deus, como vou falar isso para minha irmã?
            - Calma, Antony! Vamos ouvir a Yasmim. Depois a gente resolve o que tiver de resolver.
            A menina continua na mesma inércia. Antony desesperado vai até a filha e a sacode.
            - Fala alguma coisa, Yasmim.
            - Para com isso, Antony. – Empurra-o de perto deles dois. – Ela está em choque. Ela não está bem.
            Antony sai do quarto, desce as escadas e vai até a cozinha, gritando o nome da empregada. Esta quando ouve o patrão chamando pelo seu nome, sai em direção ao seu encontro.
            - Sim, senhor!
            Ele não lhe responde. Pega um copo e caminha até a geladeira. Após beber sua água, começa a falar com Ritinha.
            - O Ronny chegou aqui de que horas?
            Tenta demonstrar naturalidade para que Ritinha não perceba o que está acontecendo, ou melhor, o que aconteceu no quarto de Yasmim, caso não tenha ouvido nada.
            - Não sei exatamente, mas faz um bom tempo. Eu só o vi quando abri a porta para ele. Depois disso não o vi mais, nem sei se ele já saiu ou ainda continua lá por cima.
            O homem nervoso caminha pela cozinha. Apoia-se nos móveis e continua falando sem olhar para a empregada.
            - Você ouviu algum barulho, algum grito vindo de lá de cima?
            - Não, senhor! – Para de enxugar os pratos. – Por quê?
            - Nada, não. É que... – Vai saindo. Volta-se à moça. –, não está faltando nada para o almoço ou para o jantar? 
            - Não. Mas... – Caminha até a geladeira. –, não tem mais sorvete e refrigerante.
            - Pois bem. Vá comprar agora. A minha carteira está aqui na sala, me acompanhe.
            Eles saem do recinto em direção à sala. Antony pega a carteira, abre-a e tira dela duas notas de cem reais e as entrega para Ritinha.
            - É muito dinheiro para comprar refrigerante e sorvete.
            - Não! Compre o que falta. (Pausa) E vá dar uma volta, curta à tarde. Não vamos almoçar em casa hoje. Vamos sair para almoçar fora. 
            - Mas...
            Procura saber o porquê.
            - O refrigerante e o sorvete serão para amanhã. Vá!
            Ritinha sai, bem desconfiada por sinal, e Antony volta para o seu quarto, onde estão Gustavo e Yasmim.
            A filha toma coragem e começa a relatar com detalhes tudo que se sucedeu em seu quarto, desde que percebeu a presença de Ronny. Gustavo e Antony ficam irritados com tudo que ouve.
            - Aquele covarde merecia bem mais do que você vez. – Diz Antony transbordando de ódio das atitudes do seu sobrinho.
            Yasmim continua chorando, mesmo assim procura saber o que eles pretendem fazer.
            - Querida, não sei o que fazer nessa situação. Nunca me vi numa...
            Antony interrompe a voz de Gustavo.
            - Vou chamar a polícia e resolver tudo.
            A fala de Antony atinge Yasmim como se fosse uma bala disparada de um 38.
            - Pai, por favor... não... não quero ir para cadeia. – Chora. Ajoelha-se diante de Antony.
            Ele a levanta, abraça-lhe e lhe pede tranquilidade.
            - Não se preocupe. Eu irei resolver tudo da melhor forma.
            Olha em direção a Gustavo.
            - Amor, ligue para o Sebastian Marques.
            Gustavo pega o telefone celular e entra em contato com o advogado da família. Enquanto isso, Antony afasta-se de Yasmim e com o celular em mão, liga para a delegacia do bairro.
            Após a ligação dos pais, Yasmim procura saber como eles irão contar o que aconteceu para a mãe de Ronny.
            - Eu vou ligar para minha irmã após eu resolver tudo com a polícia.  
            Yasmim deita-se na cama e olhando para o nada, diz:
            - A tia Margareth vai pirar.
            Gustavo deita-se ao lado da filha, aconchega-se.
            - Ela talvez não conhecesse o filho que tinha. Se ele fez do que fez contigo, não foi a primeira vez, com certeza.

OS POLICIAIS CHEGAM À RESIDÊNCIA dos Flammy Queiroz. Os investigadores adentram ao quarto de Yasmim e passam a vistoria do local. Buscam provas. Outro interroga com um dos moradores, começa por Antony, depois Gustavo e, por fim, Yasmim.
            O delegado quer saber se há mais alguém na casa. Antony diz que estão apenas os três.
            - Mas vocês não têm empregados?
            - Sim. Temos a Ritinha. – Diz Gustavo.
            - Onde ela estava na hora do acontecido? Onde ela está?
            - Ela não está em casa. Saiu para fazer compras e eu lhe dei a trade de folga.
            - Antony, o senhor deu a tarde de folga a sua empregada antes ou depois do acontecido?
            Antes de Antony falar, o seu advogado vai adentrando e pede para falar com os seus clientes antes da continuidade do interrogatório. O delegado dá de ombro e se retira da sala.
            - Vamos para o escritório. Lá podemos conversa melhor. – Diz Sebastian.
            Eles se caminham para o escritório de Antony.
            Enquanto isso, começa a chegar repórteres. Passam a fazer link ao vivo. O que acaba com a estratégia de Antony de entrar em contato com a irmã após resolver tudo.

QUINZE MINUTOS DEPOIS, Margareth chega à residência dos Flammy Queiroz aos gritos. Antony estava conversando com Sebastian no escritório, quando ouve o tumulto causado pela irmã.
            - Fiquem aqui que preciso falar com ela.
            Ele abre a porta do escritório e dá de cara com Margareth em ira.
            - O que vocês fizeram com o meu filho?
            Ela parte para cima do irmão. Os policiais presentes tentam contê-la.
            - Calma, Margareth. Vamos conversar. Eu te contarei tudo o que houve.
            - Calma? Como você pode me pedir isso. – Tenta se soltar das mãos dos policiais. – Eu estou em casa, quando a minha empregada entra correndo e esbaforida em meu quarto dizendo que a televisão está noticiando o assassinato do meu filho. E pior, que foi na casa do meu irmão. Que este é um dos suspeitos.
            - Vamos conversar a sós, apenas nós dois.
            - Quero ver meu filho. – Chora e desaba.
            Antony caminha até a irmã e tenta acalmá-la.
            - Tudo será explicado e resolvido da melhor forma. Saiba que também estou muito triste e atormentado com tudo isso. Nunca imaginei está vivendo o que estamos vivendo.
            - E por que você causou tudo isso, meu irmão?
            Levanta-se e se afasta dela.
            - O Ronny começou toda essa tragédia. Ele não podia ter feito o que fez.
            - É mentira da Yasmim. Ele não é estuprador. Ele é um homem de bem. Meu filho querido.
            O pessoal do ITEP vai levando o corpo de Ronny dentro de um saco preto. Margareth ao ver se desespera, levanta-se e corre em direção a ele. Se envolve ao corpo do filho em lágrimas. Os policiais tentam tirá-la e com muita dificuldade, consegue afastá-la do defunto. Uma policial traz um calmante e um copo d’água para a mãe do morto.
            Todos são encaminhados à delegacia para esclarecimentos.
            O delegado pede para um policial entrar em contato com Ritinha, empregada dos Flammy.
            O primeiro a ser interrogado é Augusto.
            - Onde o senhor estava quando ocorreu o crime?
            - Eu e o Antony saímos pela manhã, fomos a uma instituição que a gente é voluntário. Ficamos lá por volta de uma hora e meia. Depois voltamos para casa.
            - O que aconteceu na residência de vocês?
            - Quando chegamos não encontramos ninguém. Fiquei sentado no sofá da sala conferindo as minhas redes sociais. Aproveitei para compartilhar algumas fotos que tirei no nosso encontro com as crianças.
            - E o Antony?
            - Ele subiu para o quarto. Minutos depois, vejo Yasmim descendo as escadas chorando e muito nervosa.
            - Ela quem matou o primo?
            - Delegado, acho que essa não é uma pergunta que meu cliente pode responder.
            - Dr. Sebastian, só estou fazendo o meu trabalho. Continuando. Seu Augusto, o que aconteceu lá em cima? A sua filha lhe falou alguma coisa.
            - Não. Eu a abracei e fiquei ali com ela, acalentando-a. Mas suspeitava de que algo muito sério havia ocorrido. Em seguida, vejo Antony descendo as escadas e indo em direção à cozinha. Eu subo com Yasmim para o meu quarto. Depois Antony chega e diz o que aconteceu com Ronny...
            - O que aconteceu com o Ronny?
            - Que ele estava morto no quarto de Yasmim.
            - Quem o matou?
            - Doutor, meu cliente vai falar o que sabe.
            - Ok, Sebastian. Continue... – Olha em direção a Augusto.
            - Ele contou que Ronny havia violentado a Yasmim e que precisava chamar a polícia. Na sequência saiu do quarto e eu continuei com Yasmim. Ela estava muito abalada, o senhor entende? Então, não quis saber mais de nada. O Antony já estava resolvendo tudo.
            - Muito bem.
            O escrivão traz o depoimento de Augusto Queiroz para ele assinar. Este sai da sala e em seguida adentra Yasmim.
            Ela, ainda muito abalada, entra e senta-se na cadeira defronte à mesa do delegado. Ao seu lado está o advogado Sebastian e ele tenta tranquilizá-la.
            - Conte tudo desde o princípio. Não deixe de falar nenhum detalhe.
            - Eu... eu... eu estava dormindo quando senti alguém em cima de mim. Tentei me virar, mas ele me segurava forte. Mesmo assim consegui vê-lo. Era o meu primo Ronny. Ele estava completamente nu sobre mim e tentava penetrar o seu... em mim.
Eu me batia muito.
            Ela interrompe a fala por causa do choro. O escrivão traz um copo d’água. Ela bebe e retoma a falar.
            - Ele tinha tomado banho e me deitei sem roupas. O que facilitou para ele. Ele conseguiu afastar as minhas pernas e meteu sem dó, com força... me violou. Aquele maldito. Ele me estuprou por longos minutos. Foram os mais longos e desagradáveis da minha vida.
            - Depois o que ele fez?
            - Depois que ele gozou dentro de mim e se satisfez do meu corpo com aquelas mãos nojentas e aquela boca... saiu de cima e foi tomar banho.
            - Você fez o que nesse momento.
            - Fiquei ali por alguns minutos. Depois sai do quarto e fui até o dos meus pais. Procurei a arma do Antony.
            - Antony tem porte de armas?
            - Senhor delegado, essa pergunta deve ser feita ao próprio Antony. Vamo-nos deter apenas ao estupro de minha cliente.
            - Tá. Depois que você pegou a arma, fez o quê? Voltei para o meu quarto. Quando entrei o Ronny já tinha saído do banho e estava lá andando pelado no meu quarto, como não tivesse feito nada de terrível comigo. Como se nós dois fossemos um casal que acabara de ter uma excitante transa.
            - Então...
            - Eu apontei a arma para ele. Eu ameacei atirar, mas não consegui. Foi, então, que Antony bateu na porta do quarto e entrou em seguida. Ele me viu ali com a arma na mão, apontando-a para Ronny.
            - O que ele fez?
            - Tentou me desarmar. Conseguiu. Quis saber o que nós dois fazíamos pelados e por que eu estava tentando atirar em Ronny. Contei tudo para ele. Meu pai apontou a arma para Ronny. Ele ficou muito furioso com a atitude vil do sobrinho.
            - Ele fez o quê?
            - Não sei. – Olha para o advogado.
            - Como assim? Por quê?
            - Eu vesti uma roupa leve e saí do quarto. Desci as escadas e fui amparada pelo meu outro pai, Augusto.
            - Então, foi assim que tudo aconteceu?
            - Sim.
            - Muito bem. Traga o depoimento para ela assinar.
            Yasmim assina o papel e sai da sala.
            Ao chegar em outro compartimento da delegacia, encontra-se com Gustavo Leone. Os dois se abraçam e se beijam. Yasmim chora compulsivamente. Gusta enxuga as lágrimas da namorada.
            - Calma! Eu estou aqui contigo. Vai dar tudo certo.

DE VOLTA A SALA DO DELEGADO, Ritinha é interrogada.
            - O que você ouviu ou viu nessa manhã na casa da família Flammy Queiroz?
            - Doutor, eu estava na cozinha lavando a louça quando ouvi a campainha da porta. Fui abri. Era o Ronny.
            - Você percebeu algo de estranho nele? Alguma mudança de comportamento?
            - Ele estava como sempre. Com aquela cara de sínico.
            - Sínico?
            - Sim. Ele sempre foi sem futuro.
            - Por quê? Ele já lhe fez alguma coisa?
            - Sim. Ele me violentou há aproximadamente dois meses.
            - Você pode relatar?
            - Eu estava lá sozinha. A Yasmim estava no exterior. Os meus patrões tinham saído. Foi quando Ronny chegou. Ele disse que estava esperando pelo senhor Augusto. Que o senhor Augusto tinha marcado com ele. Até aí tudo normal. Ele ficou na sala e eu voltei à cozinha. O meu telefone tocou e eu fui atendê-lo em meu quarto. Falei ao telefone e desliguei. Quando eu vi o canalha em pé na porta do quarto. Sem falar nada, ele entrou, fechou a porta e foi tirando a roupa.
            - A senhora fez o quê?
            - Tentei gritar, mas ele me pegou e me jogou sobre a cama, rasgou as minhas roupas e me fodeu sem minha permissão. – Diz com muita raiva.  
            - Você não contou para os donos da casa?
            - Não. Eu fiquei com vergonha. Me senti suja, humilhada. Eu era virgem. Tive dois namorados por muito tempo, mas nunca havia transado com eles. Sonhava em casar virgem. Ele tirou tudo de mim. Ele acabou com a minha honra. Mas eu consegui um novo namorado e graça a Deus não afetou a minha relação com ele. Já transamos e eu não fiquei aflita ou com fobia. Algo do tipo.
            - Certo. Mas voltando ao caso Yasmim.
            - Ele entrou, perguntou pelos tios e por Yasmim. Eu informei que eles tinham saído e que a menina estava em seu quarto. Voltei à cozinha e ele ficou lá na sala.
            - Você não ouviu nada?
            - Não. Passei um bom tempo no quintal. Até que o senhor Antony foi até a cozinha. Ele entrou me chamando, bebeu água e me pediu para comprar algumas coisas para o almoço do dia seguinte. Fomos até a sala para ele me dá o dinheiro e mandou eu passar à tarde de lazer.
            - Tá bom, então.
            Após assinar o depoimento, a moça sai da sala e Antony entra em seguida.
            - Senhor Antony, o que o senhor tem a nos contar sobre tudo que aconteceu no quarto da sua filha.
            - Bem, delegado! Quando fiquei sabendo de tudo que ocorreu, fiquei fora de mim. Como eu estava com a arma na mão. Confesso que ameacei o Ronny com ela. Meu sobrinho com medo sentou-se na cama e pediu para que eu não o matasse.
            - Mas o senhor o...
            - Como eu estava falando. Me aproximei dele, coloquei o cano do revólver na cabeça dele. Quando sentiu, foi deitando sobre a cama. Tentava se livrar da situação. Foi quando eu peguei o travesseiro, coloquei sobre a cabeça dele e puxei o gatilho da arma.
            - O senhor está confessando que é o assassino de Ronny Flammy, o seu sobrinho.
            Antony olha para Sebastian e confirma com a cabeça.
            - O senhor pode falar?
            - Sim. Fui eu quem deu cabo daquele desgraçado estuprado de mulher. Eu sou o assassino de Ronny Flammy.
            Ele assina o depoimento e é conduzido pelos policiais para uma cela. Após ouvir voz de prisão.
            Yasmim ao ver o seu pai sendo conduzido ao cárcere, fica arrasada. O que lhe dá forças é os braços do seu namorado. Augusto senta-se em uma cadeira e chora.
            Sebastian se aproxima do trio e diz que está tomando as providências para que Antony possa responder em liberdade.

TRÊS SEMANAS DEPOIS. Sebastian consegue o Habeas Corpus, o que dá a liberdade de Antony. Na saída da cadeia, ele, que está na companhia de seu advogado, encontra-se com Yasmim e Augusto. Beija o seu companheiro e abraça fortemente sua filha.
            Os três adentram ao veículo e partem para casa.
            Quando a família adentra em casa, dá de cara com Margareth Flammy.
            - Minha irmã? – Diz surpreso Antony.
            - Você ainda tem coragem de me chamar de irmã?   
            - Minha tia, a senhor veio acabar com a nossa felicidade? O pai acabou de ser solto.
            - Muito bem. – Aplaude. – Vocês podem ser felizes. Mas eu jamais serei.
            - O que você quer?
            - Preciso conversar com você, irmão. – Fala em tom de ironia.
            - Vamos para o meu escritório.
            Eles seguem em direção ao escritório.
            Ao chegarem ao escritório, Antony caminha até a cadeira que está por trás de uma mesa, senta-se e fica esperando a irmã iniciar a conversa que tanto quer ter com ele. A irmã, não muito confortada com a presença do homem que diz ter matado o seu filho único, fica em pé apenas olhando fixamente para o algoz do seu rebento. Ela fica por muito tempo sem pronunciar uma palavra sequer.
            O irmão vendo que o tempo está se alongando por demais, resolve quebra o gelo, querendo saber como Margareth está após a morte de Ronny.
            - Minha irmã, você está bem? Como você está passando depois de tudo?
            Ela caminha até uma poltrona. Parece que quer manter distância de Antony.
            - Estou superando. Não dar para esquecer um filho do dia para noite. Talvez, nenhuma mãe esqueça o seu filho por mais errado, por mais que ele tenha sido um crápula. O que não era o caso de Ronny.
            Ter começado a falar, foi como abrir uma torneira do desabafo. Margareth aparenta descontrole. É como não conseguisse controlar as palavras que saem da sua boca. E fala sem querer saber se o locutário está lhe ouvindo ou tem profundo ou raso interesse no que ela diz.
            - Ronny foi um filho de ouro. Muito amável comigo e com as pessoas que viviam ao seu redor. Se você tivesse ido ao enterro dele, teria visto como ele era uma pessoa querida por todos. Chorei muito com as homenagens que fizeram para meu querido filho nas redes sociais.
            Ela pausa para contemplar o luto. Enxuga as lágrimas e volta a falar.
            - Não sei por que você fez isso. Não sei por que ele teve de partir tão cedo. Tento encontrar respostas em minha fé, mas não as encontro. Deus parece ter me esquecido. Não sei por que, se sempre fui uma boa filha, cristão, uma mulher devota a Ele e seus ensinamentos.
            Chora. Levanta-se e caminha um pouco pela sala. Vai até a mesa, põe as mãos espalmadas sobre ela e encara o irmão.
            - Por que você fez isso? Será que foi você mesmo ou está protegendo sua queridinha?
            - Eu...
            Ela não deixa o irmão se explicar. Talvez porque as explicações dele não serão suficientes para acalentar a dor que corrói o coração dessa mãe tão triste com a perda do filho.
            - Eu tenho as minhas dúvidas. No entanto, desconfio que a razão maior tenha sido o ciúme.
            - Ciúme? – Pergunta com certo espanto.
            Ela fica ereta e continua o seu monólogo.
            - Com toda certeza você descobriu que meu filho, o Ronny, estava mantendo um caso tórrido com teu marido. Não precisa fingir que não sabia. Nem vem com essa perguntinha: “Como?”. Porque sei que você sabia.
            Começa a caminhar por todas as direções dentro do escritório.
            - Tinha visto o carro de Augusto parar por diversas vezes diante do prédio que moro, e sempre Ronny descia do carro, depois de alguns minutos lá dentro. Mas como ele sempre considerou o teu marido como tio dele, não achei que havia nada de mal nisso. E o tempo foi passando. Um certo dia entrei no quarto dele, o Ronny estava no banho, quando o telefone tocou. Fiquei querendo não ir ver quem estava ligando, só que não resisti. Fui até a cama e peguei o aparelho, no visor apareceu a foto de Augusto. Ele estava ligando. Também não maldei nada.
            Suspira e para de andar.
            - Outra vez, eu entrei novamente no quarto do meu filho. Ronny tinha saído de casa, com certeza para sair com Augusto. Havia esquecido o computador ligado, na tela aparecia o WhatsApp Web aberto. Foi quando vi as mensagens, as fotos, os vídeos. Foi quando fiquei sabendo que meu bebê estava tendo um caso com Augusto.
            Senta-se em uma cadeira em frente à mesa.
            - Eu não queria acreditar naquilo. Não porque Ronny estava tendo um caso com outro homem. Mas porque este era o marido do meu irmão que sempre amei. Acho que essa notícia foi bem pior do que saber que ele estuprou Yasmim e a empregada de vocês. Quem sabe outras meninas. Não que isso não seja algo terrível, afinal é um crime cruel à honra de uma mulher, à sua dignidade.
            Parece que ela não tinha mais nada para falar. Ficou lá sentada, olhando para Antony, chorou por um bom tempo. O seu irmão incrédulo, parecia em choque.
            - Eu não estava sabendo disso. A morte de Ronny foi exclusivamente por causa do seu ato contra a minha filha. Não podia imaginar que meu... Augusto estava me traído. Logo a mim que sempre fui tão fiel a ele. Nunca olhei para outro homem com desejo. Admiração é bem diferente de desejar. Porque sempre o tive como o meu grande amor. Meu único amor.
            Deixa as lágrimas caminharem em seu rosto. Margareth levanta-se e com uma voz potente, ameaça-o.
            - Não me compadeço da tua tristeza, pois tenho a minha. E ela é bem mais profunda e doída que a tua. Saiba que você está livre da prisão, mas não por muito tempo. Irei fazer de tudo para te ver pagar atrás das grades. A morte do meu filho não será esquecida. O seu assassino não sairá impune. Se depender de mim, Antony, jamais terás paz. Vou acabar com sua vida. Você está acabado. Vás sofrer tanto que pedirás a Deus para ter compaixão de ti. Tua irmã morreu para você, assim como morreste para mim. Aqui, em tua frente, está apenas a tua inimiga. E como inimiga serei bem mais cruel como fui boa irmã.
            Dar meia volta e caminha até a porta, abre-a e sai em silêncio. Passa pela sala e não se despede de Augusto e Yasmim. Enquanto isso, Antony continua sentado, tentando processar tudo que acabara de ouvir de Margareth.
            Após alguns minutos, Augusto adentra ao escritório e caminha em silêncio até Antony. Espera o seu esposo ter alguma reação, como isso não acontece, afasta-se um pouco e diz:
            - Acho que sei o que Margareth queria com você. Sendo assim, não posso negar. O que ela te contou sobre mim e Ronny, é pura verdade. Apenas aconteceu e eu não tive coragem de te contar. Não tive como dizer não ao que eu estava sentido por ele. Foi arrebatador. Foi inexplicável. Era como se eu estivesse vivo outra vez. Não que contigo não sou feliz. Mas nos braços de Ronny me sentia jovem, livre, desejado. Sinceramente, não sei como te explicar. Apenas que as duas relações eram completamente distintas. E cada uma teve e tem uma importância significante dentro do meu peito.

            Sai do recinto, tranca a porta. Enquanto Antony continua em seu estado de pasmo, de inércia. 

Veja também:

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

RESENHA CRÍTICA DO DOCUMENTÁRIO - MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO

O PROTAGONISMO E A PARTICIPAÇÃO INFANTIL NO CONTEXTO ESCOLAR

Rodrigo Marim ou Biel?