Razão e Emoção, do amor ao ódio - Capítulo VI



CAPÍTULO VI
Marcas da vida

O DIA AMANHECE CHOROSO, CINZENTO E PENOSO. É um dia daqueles que você prefere passar o dia inteiro sob as cobertas, no aconchego caloroso da sua cama, tanto que merece alterar o perfil das suas redes sociais para um relacionamento sério com o meu colchão. Não é uma piada, é pura verdade. No entanto, levantar-se e caminhar até a cozinha pode lhe fazer muito bem, principalmente se você tomar uma xícara de chocolate quente acompanhado de uma fatia de pão de forma gelado com Nutella. Para ser mais preciso, com generosas camadas de Nutella.
            É exatamente esse momento que Marcelo e Bianca estão vivendo. Ele envolto de tantas lembranças do seu grande amor, Fátima, que acabara de ser sepultada há dois dias. Talvez, para ele, a solução seria estar bem longe da casa onde passou vários bons e inesquecíveis momentos ao lado de sua esposa, mas para quem ama de verdade não importa o lugar, pois as lembranças irão tatuadas no coração do sofredor de amor.
Bianca tem motivos em dobro para estar vivenciando dias de extremas tristezas. O primeiro é pelo fim do seu romance com Gusta, principalmente por imaginá-lo nos braços de sua arquirrival, Yasmim Flammy Queiroz. O segundo motivo é semelhante ao de Marcelo, a perda prematura de Fátima. Para ele, nesta questão, há um agravante, além de sofrer por alguém que estava há tanto tempo ao seu lado, ainda tem que enfrentar a perda de alguém que nunca conheceu, que não sabia que existia, mas ao saber da sua existência e da sua partida, já sente que fora arrancado um pedaço a mais de si.
            Lidar com as circunstâncias da vida, às vezes pode ser insuportável, mas tudo na vida deve ser visto como ensinamento. Deve-se tirar das situações mais ruins, uma verdadeira lição de vida. É o que fazem tantas pessoas no dia a dia, ao redor do mundo. Em certos casos, tem-se de reaprender a viver. Este reaprender pode ser mais difícil quando a vida lhe presenteia com limitações. No caso dos dois, é necessário compreender, refletir e reaprender a viver sem um certo alguém do seu lado. Por mais que esse alguém tenha sido fundamental em sua caminhada. Por mais que a partida desse alguém dos seus dias deixe um vazio quase que impreenchível em sua alma.   
            Contudo, ao abrir os olhos, percebe-se que um novo dia raiou, há novos cantos dos pássaros, um choro de vida diferente, um passo importante a ser dado e escolhas a serem tomadas. Ou seja, uma decisão inadiável e fundamental para os seus próximos dias e noites que virão.

O IRMÃO DE MARCELO, VITÓRIO, BATE PALMAS diversas vezes em frente ao portão de ferro prateado. Lá de dentro da casa, o moribundo ouve um som fraco e contínuo, também ouve alguém verbalizar cada letra do seu nome.  No entanto, este não tem motivo algum para se levantar do chão e caminha-se até o portão e abri-lo.
            Marcelo continua sentado sobre a cerâmica que é gélida em sua volta, mas quente abaixo de suas nádegas, pois faz horas que ele se encontra na mesma posição. Não está falecido porque seu corpo ainda está quente com o frenético percurso sanguíneo e com as leves e tristonhas batidas do seu coração.
            Vitório, por sua vez, continua com o seu objetivo: conversar com seu irmão. Ele sabe que Marcelo está sofrendo com a ausência eterna de Fátima. Sabe também que se não dê nenhuma assistência ao seu mano, ele poderá se definhar até o caixão.
            Após muita palmas de mão, grito de “Marcelo!”. O morador que parecia estar em inércia permanente, abre o portão. Vitório olha para a fisionomia acabada do rapaz, que até dias atrás era reluzente, vivida de sonho, amor e esperança. Agora, não passa de um cadáver andante. O visitante abraça o anfitrião com força e calorosamente. Os dois adentram a casa, este vai até o sofá e se esparrama sobre ele, aquele fica em pé ainda próximo da porta olhando o estado do recinto. A sala está repleta de roupas, comida e latinhas de cervejas pelo chão. A televisão e o aparelho de som estão ligados, ela apenas exibindo um canal desativado em tela azul, ele ainda deixa exalar um soar de uma música triste de uma playlist com mais de 300 singles nacionais e internacionais.  
            - Mano, como você está, cara! – Caminha-se até o sofá individual ao lado da outra peça onde Marcelo está deitado.
            - Indo! – Exclama sem expressar nenhum movimento com a presença do irmão, de forma que nem seus lábios fizeram muitos movimentos para vociferar a tal palavra.
            - Vou dar uma limpada nesta sala e também vou fazer uma comida boa para gente. – Levanta-se e fica ereto olhando para o irmão. – Você quer comer o quê?
            - Sei lá! Acho que nada. Não tenho fome. – Vira-se para o encosto do sofá, dando as costas para tudo que estava em frente aos seus tristes olhos.
            - Ok! Vou fazer a minha especialidade então: uma massa.
            Vitório começa a limpar a sala, recolhendo as roupas e as latinhas, passa uma vassoura no piso sujo, em seguida vai até a cozinha e passa a preparar a massa que havia mencionado anteriormente.

NA CASA DE BIANCA RODRIGUES, ela e a mãe fazem uma refeição silenciosa. A jovem leva o garfo com a comida levemente a boca, a mãe observa-a em uma garfada e outra. Após terminar sua refeição, dona Rita de Kássia levanta-se e leva o prato à pia da cozinha, caminha até a geladeira e tira de dentro uma tigela com doce de jaca, o preferido da filha. A matriarca põe o utensílio sobre a pia, pega um pratinho de doce, uma colher e passa a preenchê-lo com doce. Em seguida, vira-se para a filha e procura sabe se ela quer a sobremesa.
            - Não! Não estou a fim de doce. Acho que vou dormir. Afinal, amanhã tenho que voltar ao batente. Tenho que encarar o meu maior desafeto. Isso que é provação! Não sei se irei aguentar muito tempo mais nesse trabalho.
            - Você vai superar. – Põe a tigela de doce de volta à geladeira, pega o pratinho e senta-se à mesa, delicia-se com a sobremesa, enquanto ouve a sua filha desabafar.
            - A minha vontade é dizer umas verdades na cara daquela patricinha de uma figa. Nunca tomei ódio de uma pessoa como estou sentindo por ela. A minha maior vontade é...
            - Filha, tenha um pouco mais de calma. Não faça nada do que possa se arrepender depois.
            - O maior arrependimento é ter me envolvido com Gustavo. Deveria ter continuado com o meu luto infinito.
            - Rodrigo era um grande homem. Sinto muita falta dele. Às vezes sinto que ele ainda está aqui conosco. É estranho mais sinto a presença dele, o seu perfume, o sussurrar da sua voz. Deixa para lá! É coisa da minha cabeça mesmo. – Levanta-se para pôr o pratinho na pia.
            - Acho que não. Também o sinto ao meu lado.
            Enquanto isso, Gley vem caminhando no hall da casa em direção a cozinha, mas para quando ouve Beatriz fala que sente a presença de Rodrigo Lins.

NA CASA DE YASMIM FLAMMY, a campainha toca e a secretária Ritinha atende a porta. Quem havia a tocado foi o jovem Ronny Flammy.
            - Olá, Ritinha! – Faz um carinho na face da moça. – Quem está em casa? – Vai entrando sem cerimônias.
            - Apenas a senhorita Yasmim. – Fecha a porta.
            - Sozinha! – Senta-se no sofá. – Ela está... – Procura saber.
            - No quarto dela.
            - Valeu! – Deixa estampar no rosto um sorriso safado.
            - O senhor vai querer alguma coisa?
            - Não! – Tira o celular do bolso e começa a manipulá-lo.  
            A moça sai em direção à cozinha. O jovem Flammy levanta-se do sofá e sai em direção ao quarto de Yasmim que fica na parte superior da casa. Ao chegar no espaço íntimo da prima, a encontra dormindo feito um anjo. Fecha a porta devagar para não fazer barulho, passa a chave cuidadosamente. Aproxima-se da cama da jovem e fica parado observando-a. Após alguns minutos, passa a tirar a camisa lentamente, joga-a no chão, desabotoa a bermuda, baixa o seu zipe e a deixa escorregar pelas suas pernas musculosas. O próximo passo é escorregar a cueca boxe branca por suas coxas até tocar o chão do quarto.
            Estando completamente nu, caminha sorrateiramente para o lado direito da cama da prima e deita-se sobre o colchão macio, bem devagar, cobre-se com o mesmo coberto que Yasmim tem sobre seu corpo despido.
            Ronny beija romanticamente o pescoço de Yasmim, abraça-a, acaricia os seios da prima e já excitado denta penetrá-la por trás. O exato momento em que o seu pênis pulsante se encosta na genitália da fêmea indefesa, esta desperta do sono profundo. A senhorita Flammy tenta se libertar do brutal, mas este consegue deixá-la sem ação.
            - O que você está fazendo, Rô? – Tenta se libertar dos braços do rapaz.
            - Calma! Se entregue ao prazer. – Continua dominando a prima e tentando romper a barreira da vulva da fêmea aprisionada.
            - Larga-me! Ou você me salta ou vou gritar?
            - Estamos sozinhos em casa. Aliás, nós dois e a gostosinha da Ritinha, mas esta deve estar na cozinha ouvindo algum sertanejo universitário, talvez nem vá te escutar. – Fica sobre as costas da garota e tenta abri as suas pernas para que possa penetrá-la com facilidade.
            Yasmim tenta se soltar por mais uma, duas..., dez vezes ou mais do brutal, mas não consegue. Passa a gritar por socorro, mas o som de sua voz é abafado pelo travesseiro. E após muita luta, Ronny consegue o seu objetivo, ter prazer em um sexo animal, sem consentimento da parceira. Para ele, é prazer; para ela, dor, humilhação, violação dos seus direitos de cidadã, de liberdade, de mulher.
            Cinco..., dez..., vinte..., trinta e poucos minutos se passam e o gozo se faz presente. A namorada de Gusta finalmente se encontra sem o peso do corpo do maldito violador da honra alheia sobre o seu. Ele se levanta da cama satisfeito com o ato brutal de sexo animal, ela em lágrimas e tremula se põe em posição fetal sobre os seus lençóis incarnados da podridão aromática de uma página rasgada da história vital desta mulher.
            Linhas em sangue que tracejam uma narrativa imprópria para o deleita da leitura. Apenas escancara uma rota na mente de Yasmim, jamais apagada.
            Ronny sorridente toma banho, deixa as águas do chuveiro limpar sua pele do ato estupido e covarde que acabara de cometer, mas jamais limpará a sua alma encardida de crueldade. Sai do boxe, pega a toalha e enxuga-se, volta para o quarto e não encontra mais com Yasmim sobre a cama, olha para os lados e não a ver, aproxima-se das suas peças de roupas e veste a cueca, quando ouve a voz da prima.
            - Maldito! – Diz entrando pela porta.
            - Oi! – Vira-se. – O que é isso? – Assusta-se.
            - Uma surpresa para ti, priminho! – Ironiza aponta uma arma para ele.
            - Yasmim! – Exclama, pondo as palmas para frente. – Vamos conversar? – Abaixa-se para pegar a Bermuda.
            - Levante-se! E não faça nenhum movimento. – Caminha até o alvo.
            - Guarde essa arma e vai tomar um banho, se vestir. Olhe para você, estais completamente nua. – Diz com a voz falha.
            - Irei fazer isso, quando acabar contigo. Deite-se na cama.
            - Para que?
            - Anda!
            - Calma! Vou me deitar. Pronto!
            - Passa o travesseiro para cá. Cuida!
            Ele entrega o travesseiro na mão direita de Yasmim, ela o pega, coloca-o sobre a cabeça de Ronny, arruma-o bem confortavelmente; logo, o cano do revólver 38 é posto sobre o travesseiro brutalmente e, em seguida, ela aperta o gatilho.


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