Gaivota a voar, de Evandro Calafange de Andrade


Gaivota a voar
Evandro Calafange de Andrade

Quando tocas a minha suavidade
Machuca-me!
Tua mão é navalha que fere a minh’alma,
Bisturi cortante da carne nua
Que deixa marcas na cerração da madrugada.

Quando me olhas, visão de rapina,
Deixa-me desnuda,
Tira-me a honra,
O fio da dignidade.
Leva-me a culpa da vulgaridade.
Fazes-me vão, corrimão, chão,
Ser sem perdão.

Quando falas empoderando-se
Tiras o meu direito,
Tatua em meu rosto: deveres,
Apaga-me do contexto social.
Resta-me, então, o pó,
Entrego-me, portanto, ao nó
Que não desata, mata.

Sou, enfim, mel-fel,
Sou céu-infiel,
Sou tudo-nada,
Sou a força,
Jamais a singela lata
Que chutas, amassas.

Sou a flor, o aroma,
A sonoridade do ar,
A fúria do mar,
A beleza de uma noite de luar.

Por fim, não sou propriedade...
Mas a pureza e a vitalidade da existência
Não a extensão do ser: Você.
Sou fugitiva do breu,
Quem se põe em apogeu
Sem lágrimas afogando o olhar,
Sem dor ao acordar.

Viva. Feito gaivota a voar.
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