Percurso de adeus, de Evandro Calafange de Andrade



Percurso de adeus
Evandro Calafange de Andrade

Virei-me na cama
Passei a mão em teu travesseiro frio
Abri os olhos, vi o dia raiado
Sentei-me e vi a tua carta
Sobre o criado-mudo há alguns dias
Alucinado em deslumbre, deixei envelhecer
A fresca tinta sobre o papel desbotado.

Corri as linhas lentamente
Aquela prosa tocou-me
Em uma memória sentimental
Só, percebi que tudo foi ilimitado
A cada palmo do meu nariz.
Sim, curti os amigos demais
Farreei demasiadamente
Não fui capaz de limitar as circunstâncias
Benditas malignas e famintas d’alma embriagada.

Eu sempre fui o sujeito agente
Você, em segundo plano, paciente.
O nosso amor transitava direta e indiretamente
Em vias sinalizadas e com ponto final
Tantas vezes em preposição acidental
E após uns drinques, concretizava-se intransitivo,
Mas o meu complemento sempre deu você.

Não queria a luz
Estava envolto à escuridão
Doce mãe madrasta
Mas, pior que o nada, era não ter nada
Quando abrir a porta de casa.

Desespero ao perceber
Que, no sete, parou o ponteiro
Um ponto incapaz de ir fazer suas obrigações
Apenas marca o fim prematuro de um sorriso largo.
Satisfeito, passo a passo, percorreu ao ceifador
Sublime carrasco deitado sobre o orvalho enverdecido.

Sem pensar na próxima curva
Delicia-se do coração do amante
Cheio de fel, faca, vinho fúnebre,
Homicida da vivência
Passional
Matrimonial
Fraternal...
Diante do trem do adeus!

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