Horas, de Evandro Calafange de Andrade


Horas
Evandro Calafange de Andrade

Deito-me
Levanto-me
Durmo
Acordo
Tomo o meu café da manhã
Almoço ao meio-dia
Janto sempre às 20 horas
Saio para trabalhar
Volto para casa
Frequento a academia
Um dia outro não
Vou às compras
Passo em frente às congregações
Não faço reverências
Falo mais do que ouço
Ouço menos do que vejo
Vejo menos do que sinto
Sinto mais a mim do que deveria
Toco a tua mão, mas não te sinto
Falo contigo, mas não paro para te ouvir
Vivo cada segundo, mas não me sinto vivo
Deixo as lágrimas secarem
Para me manter forte
Não sinto as carícias de ninguém
Para não passar fragilidade
Ergo a minha cabeça
Para superiorizar o meu ego
Caminho sempre adiante
Só para não ter de refletir os casos do pretérito imperfeito
Quero te dar condição,
Mas preciso seguir com os planos
A minha individualidade
Peco em não crer
Creio no meu ser, não em você
Paro a rotina, vejo-te onipresente
Ouço por um instante, sinto sua imensidão
Perco as horas massacrantes, envolvo-me em tua bondade
Não sei se é tarde demais
Ou nunca deveria haver o nunca
Contudo, sigo na minha cegueira
Na minha imperfeição psicossocial
Hoje percebo que as horas eram dominantes
Eu, dominado, esqueci de ti
E agora perco-me em tua ausência. 
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

RESENHA CRÍTICA DO DOCUMENTÁRIO - MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO

Ator Global de "Além do Horizonte" se assumiu mesmo?

O PROTAGONISMO E A PARTICIPAÇÃO INFANTIL NO CONTEXTO ESCOLAR