O PROTAGONISMO E A PARTICIPAÇÃO INFANTIL NO CONTEXTO ESCOLAR

o protagonismo  e a participação infantil

Evandro Calafange de Andrade

Este trabalho trata-se de uma discussão sobre o protagonismo e a participação das crianças na Educação Infantil, assim como a importância do protagonismo infantil na vida pessoal e social das crianças, que antiguidade era vista como um adulto em miniatura.
Além de abordar o conceito sobre o protagonismo infantil, enfatiza também pontos relevantes sobre como o professor deve realizar a promoção do protagonismo infantil no âmbito escolar. Ações que devem ser contempladas através do planejamento da prática docente.
Sendo assim, o trabalho objetiva discutir sobre a importância de uma prática docente que promova o protagonismo e a participação da criança durante sua permanência na Educação Infantil. Além disso, deixando em evidência fatores contributivos para o desenvolvimento da criança em sua vida pessoal e social.
Contudo, deve-se ressaltar que o professor é a figura fundamental na construção desse protagonismo da criança no processo de ensino e aprendizagem. Afinal, o educador está no centro do processo de aprendizagem da criança, apesar de termos a consciência de que o aluno deve ser um indivíduo ativo e não passivo na prática docente, pois o professor é um intermediador do saber e não o detentor da verdade absoluta dos saberes. 
Sobre a temática abordada neste trabalho, Santana (2008) salienta que o protagonismo infantil refere-se à concepção distinta no que remete-se ao período da infância, assim como no que se pode compreender como participação do indivíduo infantil como atores sociais, tanto na esfera da vida pessoal como à social; por conseguinte, a autora enfatiza que as crianças têm de ser reconhecidas como pessoas com direitos, critérios, capacidade e valores próprios, além disso, “participantes se seu próprio processo de crescimento e desenvolvimento pessoal e social” (SANTANA, 2008, s/p). Pode-se ressaltar também:

A Sociologia da Infância tem vindo a considerar a infância como uma construção social e a compreender as crianças como atores sociais plenos, cometentes, ativos e com “voz”. No entanto, no discurso corrente sobre a cidadania, permanecem ainda as fórmulas tradicionais e princípios clássicos que restringem a cidadania à idade adulta. (SARMENTO; SOARES; TOMÁS, s/d, p. 1)

Sobre a participação infantil, compreende-se:

A participação apresenta-se, então, como condição absoluta para tornar efetivo o discurso que promove direitos para a infância e, portanto, a promoção dos direitos de participação, nas suas várias dimensões – política, econômica e simbólica da cidadania da infância (SARMENTO; SOARES; TOMÁS, s/d, p. 1).

Conforme os autores, a criança é um ser agente participativo na sociedade; sendo, então, criança, por exemplo, “dotados de competências de intervenção, implicando não só o reconhecimento formal de direitos do seu exercício”, principalmente, “através de uma plena participação em todas as esferas da vida social” (p. 3). Logo,

a construção dos direitos participativos das crianças nos seus contextos de ação constitui um ponto modal da afirmação do reconhecimento da sua competência social. Nesse sentido, ouvir a voz das crianças no interior das instituições não constitui apenas um princípio metodológico da ação adulta, mas uma condição política, através da qual se estabelece um diálogo intergeracional de partilha de poderes. (SARMENTO; SOARES; TOMÁS, s/d, p. 3)

Por fim. Os autores afirmam que “a cidadania da infância (política, organizacional e íntima) é, em suma, a possibilidade de uma utopia coletivamente construída onde se resgate a intensidade do olhar da infância, para com ele se reconstruir uma visão renovada da sociedade” (p. 3).
Para Junqueira Filho (2013), o protagonismo infantil é a possibilidade, como também o desejo de que o professor e o aluno construam uma relação, vivam-na e que os dois sejam protagonistas conforme o que lhes compete no espaço escolar e, desta forma, evita-se a denominação ativa de um como protagonista de fato (professor) e o outro como coadjuvante (aluno). Sabe-se que, na educação, há muito tempo o docente é visto como o protagonista-mor, pois ele ensina e os alunos aprendem. Além disso, na Educação Infantil, as crianças são vistas pelos adultos de forma, pode-se afirmar, geral, por um lado como um bibelô, uma criatura fofinha, por outro lado, pestinha, criatura selvagem, de acordo com o autor, um ser que precisa ser domesticado no âmbito educacional formal.
Pode-se afirmar que as crianças sempre foram postas como coadjuvantes no processo de ensino e aprendizagem, porque têm que aprender conforme os dogmas do educador. No entanto, é importante e necessário que elas saiam dessa posição, deixem esses jeitos de passividade e passem a ter um outro jeito dentro do processo de aprendizagem, mais ativo.
O autor ressalta que se deve pensar sempre ao contrário do que se refere ao jeito da criança se portar no espaço escolar conforme as propostas dos primórdios da educação, acerca do que é aprendido na escola e com o professor, pois o jeito próprio das crianças é o que lhes faz protagonistas. Portanto, elas não devem abrir mão desse protagonismo. Desta forma, o professor deve conhecer as crianças e não querer que elas conheçam apenas o conhecimento. Por conseguinte, passam a ter uma relação, um protagonismo compartilhado tanto do professor, como da criança (JUNQUEIRA NETO, 2013). Kinney e Wharton (2009, p. 23) salientam:

Devemos reconhecer que as crianças são participantes ativos da sua própria aprendizagem. Isso significa colocá-las no centro do processo, garantindo que estejam totalmente envolvidas no planejamento e na revisão da sua aprendizagem juntamente com os educadores e que possam se envolver em conversas importantes com os adultos e com outras crianças, de modo a estender suas ideias e pontos de vista.

Desta forma, evidencia a importância de dar voz as crianças durante o processo de ensino e aprendizagem, o que enfatiza, portanto, o protagonismo infantil no âmbito escolar. Sendo assim, pode-se compreender que o professor não é o detentor da única e plena verdade, mas que há outras verdades provindas de outros indivíduos, por mais que o educador esteja no centro da discursão do “verdadeiro” saber. Ou seja, o processo de aprendizagem passa a ser pautada no diálogo construído a partir da inclusão, construção, rompimento e reorganização, no qual o professor está atuando como intermediador. Compreendendo que o adulto não é o único detentor da palavra, mas que esta pode estar com todos do grupo envolvido no processo. Edwards (1999, p. 174) salienta:

(...) o trabalho dos professores centraliza-se em “provocar oportunidades” de crescimento intelectual genuíno por uma ou mais crianças: especialmente, escutando as palavras das crianças e oferecendo essas mesmas palavras ao grupo para reestimular e estender a sua discussão e atividade conjunta. Esse método de ensino é considerado importante, complexo e delicado pelos professores, evoluindo e mudando constantemente, e é uma questão de esforço e preocupação coletivos.

Saroba (2014, p. 2) ressalta que “o protagonismo transformador é uma das características necessárias para que as crianças possam fazer a diferença no ambiente em que estão inseridas”, além disso, enfatiza que elas “poderão promover mudanças positivas, podendo arriscar, identificando oportunidades e tomando iniciativas.” Evidencia também que “o espaço escolar é um local apropriado para que as crianças possam participar ativamente deste processo, com atividades direcionadas pelo professor.” Pois, na Educação Infantil, “através de atividades simples, criativas, diferentes e envolventes, se torna uma maneira simples de estimular estas características nelas, para que se tornem adultos preparados para os desafios da vida.” Desta forma, protagonismo infantil “engloba a cooperação, a sustentabilidade ambiental, a cidadania e a ética”, por exemplo.
Sobre as ações que o professor deve realizar para promover o protagonismo infantil, pode-se considerar ainda o brincar como um fator importante acerca da linguagem da criança no seu relacionamento com o meio e com os outros (MELLO et al., 2012). Salienta-se também que a prática docente pode promover ações de incentivo as múltiplas linguagens existentes em cada criança. Além disso, é de suma importância ter um olhar mais atento, assim como uma escuta de qualidade a fim de identificar as especialidades e as potencialidades de cada um. Desta forma, pode-se considerar necessária, como já foi mencionado, uma práxis docente que dê voz e vez às crianças nos processos de ensino e aprendizagem (ASSIS et al., 2015).
Após os apontamentos e discussões sobre o protagonismo e a participação infantil no contexto educacional, compreendo que é importante o desenvolvimento de uma práxis docente pautada em uma relação entre indivíduos atuando como protagonista conforme sua característica e importância no processo de ensino e aprendizagem. Entendo que o tanto o professor quanto o aluno podem estar atuando como protagonista durante o processo de aprendizagem.
Ficou evidente, no decorrer do trabalho, que a prática do professor deve proporcionar ao aluno um espaço onde a sua voz é levada em consideração. Considerando, portanto, que o processo de aprendizagem pode ter o docente no centro das atividades, mas não como único protagonista, pois as crianças também são protagonistas das ações desenvolvidas na sala de aula e suas participações são contributivas para o seu próprio desenvolvimento biográfico e formativo, principalmente no que se refere ao contexto social.
Desta forma, compreende-se que a criança passa ser o principal ator do processo educativo e o professor assume o papel de intermediador do conhecimento. Podendo entender, então, que o protagonismo proporciona às crianças autonomia quanto à aquisição do conhecimento no espaço educacional formal, pois o protagonismo infantil é um dos fatores fundamentais para o desenvolvimento das múltiplas linguagens das crianças.
Durante este processo de ensino e aprendizagem o professor envolve, encoraja, estimula e permite que a criança expresse sua opinião sobre a temática e/ou assunto trabalhado pelo educador em sala de aula. Um momento oportuno para o docente escutar e considerar as opiniões das crianças é a roda de conversa. Neste momento o professor trabalha a leitura, a oralidade, a construção da linguagem verbal, visual e verbo-visual, entre outros aspectos relevantes para o processo de aprendizagem da criança, e o mais importante, proporciona à criança um momento e espaço de expressão de suas vivências, opiniões, seus achismos, sua compreensão do mundo no qual está inserido, pois compartilha suas experiências com os demais.
Sendo assim, ressalto que o desenvolvimento deste trabalho foi contributivo para a minha formação acadêmica, por todos os expostos nele presente e pela importância da temática abordada em todo o seu corpo textual. Em suma, além de enriquecimento intelectual, aguçou os meus saberes, fez-me dar mais um passo na compreensão da Educação Infantil, levando-me ao aprofundamento dos conhecimentos discutidos nas aulas das disciplinas voltadas para esse processo de ensino. Esclarecendo que o processo de ensino e aprendizagem desta modalidade de ensino, apesar de ser considerado complexo, é fascinante, principalmente quando se entende que a ludicidade é importante para o desenvolvimento intelectual das crianças de 0 a 5 anos; enfatizando, portanto, o brincar como fundamental durante o processo de aprendizagem.  
                                                                                              
REFERÊNCIAS

ASSIS, Lívia Carvalho de et al. Jogo e protagonismo da criança na Educação Infantil. Revista Portuguesa de Educação Infantil, 28(1), p. 95-116. CIED – Universidade do Minho, 2015. Disponível em: <http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpe/v28n1/v28n1a05.pdf> Acesso em: 27 nov. 2016.

EDWARDS, Carolyn. As Cem Linguagens da Criança: A abordagem de Reggio Emília na Educação da Primeira Infância/Carolyn Edwards, Lella Gandini, George Forman; tradução Dayse Batista. – Porto Alegre: Artmed, 1999.

JUNQUEIRA NETO, Gabriel. O protagonismo compartilhado na educação. Revisa Profissão Mestre, Humana Editorial. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=45fug0nE7j0> Acesso em: 16 nov. 2016.

KINNEY, Linda; WHARTON, Pat. Tornando visível a aprendizagem das crianças: Educação Infantil em Reggio Emília. Porto Alegre: Artmed, 2009.

Mello, A. et al. Desafios e possibilidades para a prática profissional da educação física na educação infantil. In A. Mello & W. Santos (Orgs.), Educação física na educação infantil: Práticas pedagógicas no cotidiano escolar (pp. 93-104). Curitiba: CRV, 2012.

SANTANA, Mônica. Participação e protagonismo infantil. Infância e ação: estímulo à participação infantil. Blog da formação à distância sobre estímulo à participação infantil. 2 out. 2008. Disponível em: <http://participacaoinfantil.blogspot.com.br/2008/10/participao-e-protagonismo-infantil.html> Acesso em: 27 nov. 2016.

SARMENTO, M.; SOARES, N.; TOMÁS, C. Participação social e cidadania activa das crianças. Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho. s/d.


SAROBA, Camila Benatti. A criança como protagonista de transformação na escola: A educação empreendedora em questão. Revista Primus Vitan, nº 7, 2º semestre de 2014. Disponível em: <http://mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/CCH/primus_vitam/primus_7/camila.pdf> Acesso em: 27 nov. 2016.
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