A FIGURA DO PROFESSOR NA SOCIEDADE

a figura do professor na sociedade

Evandro Calafange de Andrade

1 INTRODUÇÃO

Este trabalho trata-se de uma discussão sobre como a sociedade vê o pedagogo, assim como a importância deste profissional para a formação de um cidadão ético e político.
Enfatiza também pontos relevantes sobre o que as políticas públicas, assim como a sociedade, poderiam fazer para valorizar o trabalho do professor. Haja vista, este é um profissional de suma importância no processo de ensino e aprendizagem de um cidadão pensante e crítico-reflexivo.
Sendo assim, o trabalho objetiva discutir sobre a figura do professor na sociedade fundamentando as dificuldades encontrada por este profissional em sua área de atuação. Além disso, deixando em evidência fatores que contribuem para os jovens não optarem por cursos de graduação voltados para a carreira de magistério.
Contudo, deve-se ressaltar que o professor é uma “peça” de suma importância para a formação de uma sociedade contemporânea e futura que tem consciência da busca do conhecimento alicerçada em saberes éticos e políticos. 

 2 DESENVOLVIMENTO

É importante lembrar que o professor está presente na formação do conhecimento do sujeito social – crianças e adolescentes – há muito tempo, desde o surgimento dos primeiros pedagogos na sociedade grega e romana antiga, mas no que se refere a atuação do docente na contemporaneidade, Charlot (2008, p. 18) ressalta:

Quando se reflete sobre os desafios encarados pelos professores na sociedade contemporânea, é preciso não esquecer a advertência: ao acumular palavras ou expressões como “globalização”, “inovações”, “sociedade do saber”, “novas tecnologias de informação e comunicação”, corre-se o risco de sacrificar a análise do presente à visão profética do futuro.

Frisa ainda:

Em uma sociedade cujo projeto é o “desenvolvimento” e que está vivendo uma fase de transformações rápidas e profundas e em se tratando da formação das crianças, é difícil evitar a perspectiva do futuro quando se fala da educação. Parece-me possível superar a dificuldade analisando as contradições que o professor contemporâneo deve enfrentar (CHARLOT, 2008, p. 18).

De acordo com o autor, o que está em “conflito”, no caso, é a prática do professor contemporâneo com as “injunções dirigidas ao futuro professor ideal” (p. 18). Sobre esta prática docente no âmbito escolar, compreende-se que “o professor sempre está errado”, como bem relata o poema homônimo veiculado no Portal Bão Pra Sabão em comemoração ao dia do professor.
A atuação do professor durante suas aulas é de certa forma questionada, realmente não dar para agradar a todos, mas é preciso sempre exercer o ofício com ética e profissionalismo. Por mais que esteja em evidência uma realidade injusta no que refere à valorização do magistério em nosso Brasil.
Charlot (2008, p. 19) afirma que já na década de 1930 o professor não tinha uma valorização salarial, ou seja, ganhava-se mal, “mas é respeitado e sabe qual é a sua função social e quais devem ser as suas práticas na sala de aula.” Contudo, a partir de 1960 e 1970, surge uma nova perspectiva sobre a educação brasileira, passando a haver “um esforço para universalizar a escola primária e, a seguir, o ensino fundamental” (p. 18). Sendo assim,

as novas camadas sociais que ingressam para a escola, em particular para o último segmento do ensino fundamental, importam para o universo escolar comportamentos, atitudes, relações com a escola e com o que nela se estuda, que não combinam com a tradição e até com a função da escola (CHARLOT, 2008, p. 19)

Ainda, segundo o autor,

esses “novos alunos” encontram dificuldades para atender às exigências da escola no que diz respeito às aprendizagens e à disciplina. Ademais, já se desenvolvem novas fontes de informação e de conhecimento, em especial a televisão, mais atraentes para os alunos do que a escola (CHARLOT, 2008, p. 19)

Entendendo, portanto, que as mudanças sociais das gerações dos indivíduos pressionam o exercício pedagógico, pois “os resultados escolares dos alunos são importantes para as famílias e para ‘o futuro do país’, os professores são vigiados, criticados. Vão se multiplicando os discursos sobre a escola, mas também sobre os professores” (CHARLOT, 2008, p. 19). É importante evidenciar que a desvalorização salarial permanece sendo uma constante na vida dos profissionais da área de educação. O autor enfatiza:

O salário auferido por uma categoria profissional não depende apenas da importância social da sua função e da competência requerida para cumpri-la, mas, também, da raridade das pessoas aptas a ocupar a mesma vaga. Ora, com a expansão da escola, em particular nas camadas sociais populares, desprovidas das redes relacionais que possibilitam conseguir os empregos mais cobiçados, são cada vez mais numerosas as pessoas diplomadas e aptas a ensinar (CHARLOT, 2008, p. 19).

Nas décadas de 1980 e 1990, a sociedade passa por novas mudanças. Estas são associadas a “globalização”. As mudanças também acontecem no âmbito escolar, pois a educação também sofre com as “exigências de eficácia e qualidade da ação e da produção social.” Além disso, “a ideologia neoliberal impõe a ideia de que a ‘lei do mercado’ é o melhor meio, e até o único, para alcançar eficácia e qualidade”. Pode-se citar ainda o desenvolvimento das “novas tecnologias da informação e comunicação” (CHARLOT, 2008, p. 20). Surgem, portanto, as redes sociais e a posterior o crescente mercado e consumo de smartphones. Sendo assim,

Todas essas transformações têm consequências sobre a profissão docente, desestabilizada não apenas pelas exigências crescentes dos pais e da opinião pública, mas também na sua posição profissional (nas escolas particulares), na sua posição diante de seus alunos, nas suas práticas (CHARLOT, 2008, p. 20).

       Compreende-se, então, que o professor ganha “uma autonomia profissional mais ampla, mas, agora, é responsabilizado pelos resultados, em particular pelo fracasso dos alunos.” Todavia, “o professor deve, agora, pensar de modo, ao mesmo tempo, ‘global’ e ‘local’. Há de preparar os seus alunos para uma sociedade globalizada e, também, de ‘ligar a escola à comunidade’” (CHARLOT, 2008, p. 20). Por fim,

o próprio professor encarna essa contradição radical: sonha em transmitir saberes e formar jovens, mas vive dando notas a alunos. De forma mais ampla, o professor trabalha emaranhado em tensões e contradições arraigadas nas contradições econômicas, sociais e culturais da sociedade contemporânea (CHARLOT, 2008, p. 20).

Para tanto, faz-se necessário ao educador ter consciência de suas atribuições e de aspectos pertinentes a sua carreira docente, entre estes, podem-se destacar algumas características de bons professores, tais como os que domina os conteúdos curriculares das disciplinas; tem consciência das características de desenvolvimento dos alunos; conhece as didáticas das disciplinas; domina as diretrizes curriculares das disciplinas; organiza os objetivos e conteúdos de maneira coerente com o currículo, o desenvolvimento dos estudantes e seu nível de aprendizagem; seleciona recursos de aprendizagem de acordo com os objetivos de aprendizagem e as características de seus alunos; escolhe estratégias de avaliação coerentes com os objetivos de aprendizagem; estabelece um clima favorável para a aprendizagem, entre outras (NOVA ESCOLA, 2010).
Sobre as características que compõem o novo perfil dos professores, Moço e Martins (2010, s/p) ressaltam:

Não é mais possível dar aulas apenas com o que foi aprendido na graduação. Ou achar que a tecnologia é coisa para especialistas. Trabalhar sozinho, sem trocar experiências com os colegas, e ignorar as didáticas de cada área são outras práticas condenadas pelos especialistas quando se pensa no professor do século 21. Planejar e avaliar constantemente, acreditando que o aluno pode aprender, por outro lado, é essencial na rotina dos bons profissionais.

Sendo assim, pode-se afirmar que a o bom professor é aquele profissional que se contenta em estar em sua “zona de conforto”, mas aquele que está sempre em busca de novos conhecimentos, desafios, aberto as novas tecnologias da informação e comunicação, que tem consciência de que uma educação permanente é de suma importância para a sua prática docente, além disso, que uma formação em educação experiencial é importante, pois olhar para a sua formação, refletir sobre as experiências vividas em sua trajetória biográfica e formativa, assim como se propor a aprender com o outro – alunos e colegas de profissão – são fatores essenciais para a formação continuada do docente. Logo, contributiva para exercer sua prática docente com eficácia e qualidade. Refletindo assim no processo de ensino e aprendizagem dos alunos.
O esforço de docentes para se tornarem um bom professor, de acordo com o novo perfil docente exigido pelo mercado de educação, esbarra exatamente nos grandes vilões do magistério: desvalorização social, mal remuneração e rotina desgastante. Estes fatores também influenciam na decisão dos jovens a não optarem por ingressarem em cursos de licenciatura. Optando, assim, por cursos de graduação que lhes garantam uma carreira profissional que seja valorizada socialmente, bem remunerada e que não exija uma rotina massacrante do trabalhador. E de acordo com Ratier (2010, s/p), “a baixa procura contrasta com a falta de docentes com formação adequada”. Ressalta ainda:

A docência não é abandonada logo de cara no processo de escolha profissional. No total, 32% dos estudantes [...] cogitaram ser professores em algum momento da decisão. Mas, afastados por fatores como a baixa remuneração ([...] 40% dos que consideraram a carreira), a desvalorização social da profissão e o desinteresse e o desrespeito dos alunos ([...] 17%), acabaram priorizando outras graduações.

É importante frisar que, de acordo com o autor tomando como base o Censo da Educação Superior (2004 e 2008), 80% dos jovens que escolheram licenciatura, precisamente o curso de Pedagogia, foram alunos que havia cursado o Ensino Médio em escolas públicas, sendo que 92% dos estudantes optantes pela  área da educação são do sexo feminino.
Percebe-se, portanto, que os jovens de classe social alta e que tiveram oportunidade de estudarem em escolas particulares, veem a profissão de professor como sendo uma carreira desvalorizada socialmente. Talvez os estudantes de escolas públicas que optam pela licenciatura também tenham a mesma opinião, no entanto, visualizam na carreira docente a “única” oportunidade profissional provinda de uma graduação. O relatório do Instituto Paulo Montenegro com base nas pesquisas do IBOPE acerca de como os professores veem a condição docente constatou:

Se o professor mostra-se convicto e consciente de sua importância para a sociedade, o mesmo não ocorre quanto à sua opinião a respeito do que a sociedade pensa de sua profissão. Para 22% dos entrevistados, o docente não é devidamente valorizado pela sociedade. Para a metade dos ouvidos, a sociedade dá aos professores pouco ou nenhum valor. (INSTITUTO PAULO MONTENEGRO, s/d; p. 5)

É certo que há vários motivos que fazem da carreira docente ser desvalorizada socialmente, muitos atribuem este fato ao próprio educador. E talvez seja, em parte, considerando que muitos dos profissionais da área de educação praticamente “caem de paraquedas” no ofício de educar. Por isso é importante ao professor saber que “a finalidade mais geral do ensino e do papel do professor é contribuir para a formação de um cidadão crítico e reflexivo, que se reconheça como agente de sua história individual e coletiva e que atue na sociedade de forma transformadora” (MOREIRA; JESUS; PINHEIRO, 2013, p. 2298); apesar de entender que

alcançar seu trabalho em toda sua pluralidade tem tornado uma tarefa dolorosa para aqueles que atuam e trabalham a educação, a falta de ferramentas adequadas, ambientes de trabalho acolhedores, as várias formas de violência – física, moral, psicológica, etc -, a ausência da família na escola, o total desinteresse do poder público e tantos outros obstáculos vem minando as expectativas do professor e, sobretudo sua satisfação profissional (MOREIRA; JESUS; PINHEIRO, 2013, p. 2298).

Em suma, pode-se compreender que “a responsabilidade docente acarreta para si a tarefa ímpar de fornecer aos discentes o embasamento necessário para a solidificação do conhecimento humano e técnico-científico” (MOREIRA; JESUS; PINHEIRO, 2013, p. 2299). No entanto, é perceptivo a dificuldade do docente diante de suas atribuições no âmbito escolar devido à falta de estrutura física e de recursos didáticos-tecnológicos que possam auxiliar no exercício de mediar o saber.
Além de todos os expostos sobre a desvalorização do professor, principalmente sobre as dificuldades enfrentadas pelos educadores. É importante que este profissional seja reconhecido socialmente, pelos alunos e seus familiares, pelo poder público e, essencialmente, pela própria categoria.
Compreender-se também que além de valorização salarial dos professores, os governantes poderiam garantir aos educadores autonomia docente, segurança e, tão importante quanto os pontos citados, a motivação profissional através de políticas públicas contributivas para a educação brasileira. A motivação profissional é o resultado esperado após a efetivação de todos os itens elencados, só assim será possível afirmar que a carreira docente é atrativa para quem já está vivenciando-a e para quem deseja fazer parte dessa vivência profissional.
É certo que um profissional motivado atuará com mais eficiência e eficácia, contribuindo, assim, para um ambiente escolar com mais qualidade e voltado para as suas responsabilidades. Afinal, sabe-se que “o ato de educar é bastante reflexivo, pois é necessária conscientização da importante responsabilidade na formação dos alunos”. Por conseguinte, “como formadores de opinião é necessário, além de diversos fatores, primar pela ética e pela coerência”, até porque “lecionar traz como condição básica pesquisar, falar, proporcionar, vivenciar, ouvir, dialogar, debater, transformar... educando o indivíduo para a vida”. Para tanto, faz-se necessário a profissionalização do professor na área, pois é preciso que o docente instrua o “seu aluno a pensar certo nos caminhos que a vida irá lhe propor e que este aluno consiga visualizar o que é válido e o que não é” (MANZONI, 2012, s/p).
Por fim, é evidente que a situação do magistério é difícil, como foi mencionado no decorrer deste trabalho, o professor enfrenta muitas dificuldades de diversas proporções e provindos de meios distintos da nossa sociedade. Contudo, o educador não pode se deixar vencer por todas essas negativas que rondam a carreira docente. Mas ter consciência de que o caminho “é a visão ampla de uma política justa, correta”. E que “as crianças de hoje serão os futuros políticos, donos de escolas, diretores, gestores de amanhã”. (MANZONI, 2012, s/p). Portanto, se estas estiverem inseridas em um processo de ensino e aprendizagem que objetive conscientizá-las “a agirem com ética e moral, por terem sido conscientizados por seus professores, serão mais zelosos com os benefícios voltados para a educação” (MANZONI, 2012, s/p).

3 CONCLUSÃO

Após os apontamentos e discussões sobre a figura do professor perante a sociedade e, de certa forma, a sua importância para a sociedade. Compreendo que o educador é essencial na vida dos cidadãos, pois é através da mediação do conhecimento que nós, professores, podemos fazer a diferença na vida dos nossos alunos e da sociedade.
Apesar das políticas públicas não valorizarem a educação dos cidadãos, a escola como um espaço de aprendizagem e do professor como um recurso humano essencial para a formação educacional de crianças, jovens e adultos. Afirmo que o futuro do ser pensante, crítico-refletivo e dos saberes dos sujeitos sociais está ancorado na figura do professor, por tudo que este representou, representa e continuará representado para o homem como ser social.
Sendo assim, ressalto que o desenvolvimento deste trabalho foi contributivo para a minha formação acadêmica, por todos os expostos nele presente e pela importância da temática abordada em todo o corpo textual. Portanto, além de enriquecimento intelectual, aguçar os meus saberes, fez-me dar mais um passo na minha carreira docente, levando-me a compreender fatores cruciais na luta do professor por permanecer ser um profissional, de certa forma, insubstituído. Apesar de muitos pensarem o contrário desta afirmação, principalmente nesta era da tecnologia da informação e comunicação em ascensão e tão acessível a todos, em algumas áreas do país e do mundo.
                                                                                                  
 REFERÊNCIAS

CHARLOT, Bernard. O professor na sociedade contemporânea: um trabalhador da contradição. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 17, n. 30, p. 17-31, jul. / dez. 2008.

INSTITUTO Paulo Montenegro. Como o professor vê a educação. s/d. Disponível em: http://www.fvc.org.br/estudos-e-pesquisas/avulsas/estudos1-1ser-professor.shtml?page=4 Acesso em: 2 nov. 2016.

MANZONI, Priscila Manzoni de. A escola e o professor na formação de um sujeito ético-político. 2012. Disponível em: http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?e=5&n=23518 Acesso em: 2 nov. 2016.

MOÇO, Anderson; MARTINS, Ana Rita. O novo perfil do professor – diferentes demandas se apresentam hoje como essenciais para quem está à frente de uma sala de aula. Nova Escola, Ed. 236, outubro de 2010. Disponível em: Acesso em: 2 nov. 2016.

MOREIRA, V. M.; JESUS, C. F. A. de; PINHEIRO, V. P. A valorização do professor: o desafio do reconhecimento. Enciclopédia Biosfera, Centro CientíficoConhecer, Goiânia, v. 9, n. 16, 2013.

NOVA ESCOLA. 20 qualidades do professor ideal. Outubro de 2010. Disponível em: Acesso em: 2 nov. 2016.

PORTAL Bão Pra Sabão. O professor sempre está errado. Disponível em: Acesso em: 1 set. 2016.


RATIER, Rodrigo. Ser professor: uma escolha de poucos. Revista Escola, janeiro de 2010. Disponível em:   Acesso em: 2 nov. 2016.
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