Um feliz dia dos pais


Homenagem ao pai

Evandro Calafange de Andrade

Na minha infância, você era o meu grande herói. O teu toque e a tua presença eram sinônimos de proteção. O teu sorriso enchia-me de orgulho. O teu olhar ensinava-me ser a melhor criança entre tantas. Mas o tempo passou, a adolescência chegou e continuaste sendo importante para mim, pois passaste a ser o meu amigo, aquele com quem eu poderia conversar, contar nas horas mais difíceis, mas também, houve momentos nebulosos, principalmente quando sentia vergonha de ti, por não te achar, talvez, digno de conhecer os meus amigos, de fazer parte dos meus grupos fraternais.
Nesse instante, depois de tudo, após centenas de vezes que me barbeei, aprendi que a imaturidade nos conduz em trilhas tortuosas e afiadas, tanto que faz sangrar, gerar dor a outrem e nos segar.
As fases da lua iam e vinham, eu fazia mais e mais primaveras. Olhava-me no espelho e já me via adulto com um extenso curriculum vitae e com falhas na cabeleira. Você, apesar da idade avançada, ainda estava ao meu lado; no entanto, a rotina da minha vida, a responsabilidade de ter 20 e poucos anos, os projetos da vida aos 30 anos e os sonhos que a cada dia ficavam mais impossíveis de realizar, fizeram-me não te enxergar defronte a mim.
Sendo assim, constato que a consciência me faltou. Afinal, o tempo passa para todos, portanto, não foi diferente para ti e nem para mim. Hoje, pego-me a lembrar da minha infância, das nossas brincadeiras, das gargalhadas gostosas, daquele almoço de domingo, das noites de preocupações ao me ver febril, enfermo, temporariamente fora de combate. Logo, fecho os meus olhos e aprecio, sublimemente, os momentos que te presenteava no segundo domingo de agosto. Ao abri-los novamente, pego as fotografias e percebo o quanto fui egoísta, em certas ocasiões, ao pensar apenas em mim.
Agora só me restam momentos não vividos, alguns presenciados, outros compartilhados, outros e mais outros em um passado remoto. Assim como o dia que celebramos a tua passagem, oro, deixo uma lágrima tímida percorrer em minha face, não tão tímida como fui por não te dizer: te amo!

Por conseguinte, um filme, uma fotografia, páginas rabiscadas, poema declamado, manuscritos em versos nunca verbalizados, a vida se passa acalentada pela fria brisa de outono e dentro de mim apenas a vontade de um recomeço, de estar diante de ti para, então, desejar-te mais uma vez: Feliz dia dos pais.
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