Espaço Literário 5


Eu

                                                                           Evandro Calafange de Andrade


            Não sei se era sonho ou tudo não passou de pura realidade. Estava dormindo no topo de uma colina no meio de um grupo de amigos. Acho que eles eram meus amigos, não sei ao certo. Quem sabe se no decorrer dessa história eu descubro.
            Como eu dizia, estava dormindo, mas conseguia ouvir o barulho de grossos pingos d’água caírem da calha do local onde eu estava. Como estava localizado no topo de uma colina, o vento sobrava bravo, com tanta fúria que havia dias que não conseguíamos dormir direito com tanto ruído.
            Além do som da chuva, podia ouvir bem longe, mas ouvia passos, ora lento, ora apressados. O meu coração começou a palpitar cada vez mais rápido. Não quis abrir os olhos para ver quem era, no entanto, sabia que essa pessoa estava chegando bem perto de mim. E quando eu menos esperava, uma mão enorme me pegou com toda a força de seu corpo. Acho que ele queria me esmagar. Levou-me para longe. Abri um pouco os olhos, era um imenso gigante, cabeludo e todo trajado de preto. Havia algo tampando os ouvidos dele e alguma coisa cobria a sua cabeça. Deveria ser uma capa, já que chovia forte.
            Meu corpo tremeu feito vara verde. Não tive coragem de olhar para baixo. Era muito alto. Só pensava: se ele me largar dessa altura, eu morro. E morrer longe de casa não é um bom negócio. Afinal, quem irá me encontrar para me oferecer um enterro digno de lorde inglês. Sim! Não havia revelado isso para vocês. Eu nasci na Inglaterra, terra da realeza. Sou um nobre.
            De repente, o gigante me larga sobre uma estrutura de madeira. Mas creio que era no topo de outra colina. Lá havia outros seres, alguns estavam amordaçados, amarrados em grupo e vários gigantes os pegavam e colocavam em um recipiente grande, escuro, e saia carregando-o para fora do ambiente coberto.
            Comecei a pensar: isso vai acontecer comigo também. Será que esse recipiente me protegerá da chuva? Pois está muito, muito frio. Mas pudera, estamos no inverno. Tempo de muitos temporais e frio intenso.
            E os meus pensamentos se fizeram verdade. Fui pego por uma gigante vestida de amarelo. Até que ela era linda, mas cruel. Ela me jogou sem dó e piedade dentro do recipiente escuro. Contudo não estava só. Encontrei outros companheiros de velha data. O japa e o italiano, meus amigos de infância, estavam comigo nessa jornada nada agradável. O japa Tojo me perguntou se eu sabia para onde estávamos indo. Sem nenhum mistério, verbalizei uma resposta, a mais óbvia que poderia expressar naquele momento.
            O italiano Corret se saltou e falou: estamos sendo sequestrados. De acordo com os antepassados dele, fomos vendidos para ser escravos do gigante Black. E que a colina que estávamos não eram o nosso lá de verdade. Pois era na verdade um cativeiro dos vendedores de escravos.
            Cada vez que ele falava, mais nervoso eu ficava, o medo tomava conta de mim sem piedade e cheio de malícias. Mas, tinha que seguir em frente, não poderia demonstrar medo e nervosismo. Afinal sou um nobre, sou o inglês Pen. Minha família não iria ficar contente em saber que eu exibi fraqueza diante de pessoas estranhas e que talvez não fossem da realeza, com certeza eles não eram nobres. O italiano Corret até poderia ser, mas o japa Tojo, claro que não.
            Fizemos silêncio ao ouvir o som de chaves e de uma porta abrindo. Parecia que tínhamos chegado na residência do gigante. Ele caminhou por alguns segundos, subiu escadas e abriu outra porta. Sentou-se na cama grande dele e jogou o recipiente, onde estávamos, sobre o seu leito frio. Ficamos juntos, um bem próximo dos outros. Pois não sabíamos o que ia acontecer em seguida. E o saco foi aberto, uma mão grande adentrou em nossa direção.
            O primeiro a ser pego foi japa Tojo. O pobrezinho nos olhava pedindo socorro em silêncio. Não podíamos mais vê-lo nem o ouvir. Mas algo acontecia com ele, porque um som de algo abrindo foi soado ao ar. Acho que o gigante abriu o coitado do Tojo. E na sequência foi um após outro. Até chegar a vez do último: eu.
            Black me pegou e eu o encarei, vi um sorriso maligno naquela cara imensa. Ele parecia estar com prazer de fazer tudo que estava fazendo. Abriu a barriga do japa Tojo e colocou cada um de nós dentro do nosso querido amigo. Contudo, o mais grave e horripilante estava por vir. O Terrível pegou o meu primo Pencil e levou-o na boca do devorador cruel Apontador. Foi muito triste ver meu primo sendo devorado e suas partes caírem sobre aquele chão gélido e desconhecido.
            Longe de casa, da nobreza da Inglaterra, não me restava mais nada. Apenas servir àquele Gigante Terrível. Apesar de ser uma criança, ele não tinha dó da gente. Pegava-me e escrevia, escrevia, escrevia. Nunca me perguntou se eu estava cansado. Ele não queria saber. Joga-me dentro da dona Mochila que estava sempre cheia de coisa. E nos levava para lá e para cá. Era dentro de carros, vans, sobre a mesa da sala de aula, da cantina, do quarto, na cozinha. Em todos os lugares estávamos. Às vezes sem fazer nada, mas muitas das vezes estávamos trabalhando para ele.
            Se você está lendo essas palavras relatadas cheias de amarguras, é porque eu já estou no fundo de algum latão ou descansando em paz em qualquer lixão da cidade dos gigantes. Mas saibam que fui um herói, fui um escravo, no entanto, um herói. Porque escrevi muitos textos, alguns não valiam nada, mas outros se tornaram grandes relíquias. Sabem o garoto gigante? Ele redigiu vários textos com a minha ajuda e concorreu a concursos importantes, um deles, internacional. E fomos campeões. Sim, “Nós”! Porque eu fui um colaborador dele; afinal, sem a minha ajuda, ele não teria ganhado todos aqueles prêmios: Certificados, troféus, medalhas.
            Eu, Pen, mais conhecido no Brasil como Caneta, fui um escravo nobre inglês fiel de um escritor prodígio, o Gigante Black, o Terrível.
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