O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro

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RESENHA DO DOCUMENTÁRIO: O POVO BRASILEIRO

Por Evandro Calafange de Andrade

          O documentário “O povo brasileiro” é baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro. O filme é subdividido em sete programas. São eles: Matriz Tupi, Matriz Lusa, Matriz Afro, Encontros e desencontros, Brasil crioulo, Brasil sertanejo, Brasil caipira. A obra discute e explica a formação e o sentido do Brasil. É um estudo sobre a formação do povo brasileiro desde os seus primórdios, tupiniquins.
A palavra Brasil, a qual nomeia o nosso país, não vem do pau-brasil, mas dos povos indígenas chamados brasis. Povo este que não constituía uma nação, que vivia em aldeias, que habitava essa terra que hoje chamamos de nação brasileira, há mais de 10 mil anos antes da chegada e da colonização dos portugueses em 1.500. Os índios viviam livremente nesse imenso território então “descoberto” pelos portugueses. Os indígenas que aqui habitavam tinham uma sexualidade livre, a homossexualidade era comum entre eles e regiam as suas próprias leis. Uma delas era a punição com espancamento atribuída as índias adúlteras, uma atitude não aceitável pelos homens das tribos. Entre eles, homens e mulheres, havia divisão de tarefas. Os homens guerreavam contra os habitantes de outras tribos e alguns dos prisioneiros eram feitos escravos, outros eram mortos durante um ritual e suas carnes eram saboreadas por todos da aldeiam, exceto o guerreiro que o havia capturado e o executado, conforme leis de algumas tribos indígenas.
           Há nos grupos indígenas brasileiros muitas diferenças de língua e de origem. No entanto, há muita coisa em comum, pois eles cultivam a terra e não se sentem dono dela. Mas a considera um bem-comum daquela aldeia e, além disso, o que um índio sabe, todos sabem, haja vista que nenhum membro desse grupo se apropria da informação transmitida de modo indevido para fins políticos e religiosos ou de qualquer outro caráter.
           O chefe indígena não é um todo poderoso que dá ordem aos demais. Ele representa à tradição, a sabedoria, a experiência.
           Pode-se afirmar que herdamos muitas das atitudes dos grupos indígenas brasileiros, como: as formas de agirmos no dia a dia, principalmente, o costume do banho diário. Assim como o cultivo da terra, dentre outras.
             Os navegadores portugueses chegam à terra dos índios brasis e dela se apossam, tiram-lhe a riqueza, exploram-na e nela os colonizadores procriam com as índias, gerando, assim, crianças mestiças sem nação. Anos mais tardes, os brancos trazem os negros como mercadorias para fins comerciais e para o trabalho escravo. Chegam, então, nessa terra, os africanos.
             Quando os europeus chegaram à África, o povo africano já conhecia a escravidão, pois os negros já viviam em um reino de escravos e senhores de escravos.
           Podemos, portanto, afirmar que a cultura brasileira é quase que em sua totalidade africana. Já que também sofreu influência da cultura indígena e europeia. Logo, de outros povos. A arte africana é desenvolvida sobre quatro pilares: a pessoa, a comunidade, a natureza e a criação. Mas, também, sobre a tradição, o passado e a história. Assim sendo, a cultura brasileira tem base africana e indígena, como também, fusão cultural portuguesa-indígena-africana.
         Em suma, o povo brasileiro é um povo mestiço. A nação foi criada mediante o nascimento de filhos de europeus com as índias, que não eram ninguém; de europeus com as africanas, que também não eram ninguém. Mas, logo, tornam-se brasileiros.
           Esses são conhecidos também como sertanejos, mistura entre ameríndios e brancos mestiços, que saíram de São Paulo e da Bahia em direção ao sertão nordestino, fazendo avançar a fronteira agrícola, a economia pastoril, através da exploração do açúcar, do couro, da carne e do boi de serviço.
       E também caipiras, os moradores da região paulista, providos da mistura entre portugueses e índios. Esses também sofreram influência da cultura africana. É um povo que preserva a tradição, vivem em bairros, considerados pequenas nações, e ainda fala de acordo com a linguagem culta do século XVII. Forma essa de falar que sofre preconceito dos intelectuais dos grandes centros urbanos.
Ainda com base na obra de Darcy Ribeiro, voltamos a nossa atenção para o aumento de brancos e pardos, assim como para o baixo crescimento dos negros no período de 1872 a 1990. Acerca do crescimento da população brasileira parda se deve ao aspecto de alguns negros claros se considerarem pardos. Já a população branca pode ser explicada pelo número insignificante de mulheres imigrantes brancas vindas ao Brasil, ocasionando o relacionamento entre o homem europeu e as índias, consideradas as mulheres da terra; resultando, portanto, num tipo de moreno claro, que no Brasil é branco; além de todos os bem-sucedidos se considerarem brancos.
         Em 1950, o censo mostrou a disparidade entre as condições de vida e de trabalho de negros e brancos. De acordo com as pesquisas, chega-se a conclusão de que “para cada mil brancos maiores de dez anos, 23 são empregadores; enquanto, apenas 4 negros por cada mil empregadores”. Pode-se também afirmar que a população negra não encontrou condição rápida de ascensão social, assim como os imigrantes. Portanto, sabe-se que o negro era tratado como ser escravo e mesmo depois da abolição deste, ele se via obrigado “a se enquadrar num outro tipo de exploração a do subproletariado ditado pelo latifúndio”.
        A existência do preconceito em território brasileiro tende a identificar como branco o mulato claro, conduz a antes a uma expectativa miscigenação. Esta, no entanto, é discriminatória, pois, espera que os negros clareiem ao invés de aceitá-los como realmente são.
      Outro tipo de preconceito existente em nosso país é o preconceito de classe, tão estupido e agravante quanto o preconceito de raça e de cor. Existe, portanto, uma enorme distância social que medeiam pobres e remediados, principalmente pelo seu grau de integração ao estilo de vida dos grupos privilegiados e dominantes. Essa distância é agravada pela falta de investimento no setor público de educação, apesar de ter dado um salto significante nos últimos anos. No entanto, uma parcela bem significativa da população do nosso país ainda vive “excluída” do universo do conhecimento acadêmico, ou seja, sem escolaridade ou com baixo nível de escolaridade. Em alguns casos, no mundo dos analfabetos funcionais. Ainda há outros fatores que elevam essa distância social no Brasil, são elas: como analfabetos e letrados, detentores de um saber vulgar transmitido oralmente ou de um saber moderno, como herdeiros da tradição folclórica ou do patrimônio cultural erudito, como descente de famílias bem-sucedidas ou de origem humilde, ou seja, a oposição entre pobres e ricos é bem mais significante que a existência entre brancos e pobres.
Também se pode explicar a mistura de raças do povo brasileiro através da sua sustentabilidade nos quatro pilares, segundo Darcy Ribeiro: as matrizes que compuseram o nosso povo, as proporções que essa mistura tomou em nosso país, as condições ambientais em que ela ocorreu, os objetivos de vida e produção assumidos por cada uma dessas matrizes. Somados há três forças: a ecologia, a economia e a imigração. O autor afirma ainda que hoje “somos mais marcados por nossas semelhanças que pelas diferenças”.
Portanto, sabe-se que a nação brasileira se homogeneizará cada vez mais, não só pela mistura entre europeus e indígenas, ou entre portugueses e africanos, ou vice-versa, relação essa que marcou o surgimento do povo brasileiro. Mas uma mistura racial mundial, uma influência cultural mundial, já que nosso país é a casa de muitos dos povos de nações adversas, de culturas adversas. De tal forma que teremos no futuro um patrimônio multirracial comum. Tanto é verdade, que já podemos afirmar, que a nossa língua materna “está comprometida” pelo idioma estrangeiro, o inglês.
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