Intertextualidade: Alma sertaneja, de Evandro Calafange de Andrade


Alma sertaneja

Gosto de acordar todos os dias com o cantar do galo, com o berrar das vacas e do relinchar dos cavalos. Tomar o café preto, no dedo como fala minha vó, e sair tristemente pela estrada de barro em direção à escola, como os mais velhos dizem: para o grupo escolar.

Triste porque nada de colorido meus olhos iram vê. Minto! Vejo o colorido das páginas do livro que todos os dias eu leio na aula de português. Confessor que amo demais. Afinal, é nesse momento que posso mergulhar em um açude com água limpa e gelada, que eu posso tomar o leite quente saído das tetas da vaca, que eu posso cavalgar pelas terras áridas e tomar banho de chuva na companhia da minha querida cadela baleia. Esse nome eu tirei do livro que eu li: o grande sertão vereda.

Mas, nessa manhã de sol escaldante, eu viajei num mundo de fantasia ao ler o sertão verde, de Maria José Dupré. E a tristeza tomou conta do meu coração sofredor. Ela descrevia o que nunca viu; simplesmente, o que só ouviu dos seus pais. Bem diferente de mim que raramente vi tamanha beleza sertaneja. Enquanto que eu posso descrever tudo por outra ótica. Afinal, nesse sertão que a narradora descreve, não é o mesmo que eu vivo. O que meus olhos conferem todos os dias é uma terra seca e marrom, animais esguios de fome e de cede. Uma população de joelhos orando para o nosso divino Pai. Uma agonia na alma e de um olhar mendigo por um prato de alimentação. Vejo, também, um sono perturbado e tenebroso de um povo que sonha com a fartura que nunca tiveram de verdade.

Aqui não tem nem essa fartura de grupos de borboletas coloridas que Vinícius de Morais cita em seu poema e a hortelã verde-amarelada tórrida de calor, também conhece as mãos secas e rachadas da minha vó e da sombra quente da tarde, bem diferente do texto de Carlos Luis Sáenz.

Contudo, se não fosse essa fantasia das leituras matinais na escola eu não teria esperança. Não estaria vivo para escrever essas linhas, nem olhava para o horizonte com a certeza de que um dia o sertão pode virar mar. E afastando da minha tenebrosa mente a possibilidade de o sertão se tornar deserto, sem vida humana e animais para descrever a beleza do bioma caatinga.

Um sertão verdejante de verdes matas, cafezais, horta, pomar, papagaios e periquitos gritadores que passam no céu azulado em bandos com as suas asas refletindo os raios solares. As plantações crescentes e as árvores floridas e cheias de frutos. Sonho que sonho na leitura dos livros escolares. Borboletas azuis, vermelhas, verdes, amarelas, pretas que embelezam as matas úmidas do orvalho da manhã. Hortelã esverdeada, que fica feliz com a lua e as estrelas. Folhinhas frescas de hortelã, que reconhece as mãos enrugadas e bem cuidadas de minha vó e as horas de sombra sertaneja serena. Ilusão! Tórrida mente ilusionaria, que alimenta a minha alma.

Lembranças que guardo de uma infância feliz, mas sofrida. Lembranças que acalenta a minha alma calejada de um sofrido guerreiro sertanejo. E assim, caminha a humanidade sertaneja.

Natal, 10 de junho de 2012.
Evandro Calafange de Andrade
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