Resenha: Temos o poder do controle remoto?


Temos o poder do controle remoto?

By Evandhro Calafange de Andrade 

            Hoje, eu acordei, peguei o jornal e abrindo as páginas me deparei com uma reportagem, um tanto curiosa. De certa forma era sobre a devoção dos plebeus aos reis e rainhas das maldades dramatúrgicas brasileiras. Mas, também, o pouco de admiração por um ser real que ao mesmo tempo pode se perpetuar do mel como, também, do azedume da vida.
            Estou me referindo às tramas novelescas da tevê aberta do Brasil. O que não é diferente dos outros países. Quem não amou e desamou Flora e Donatela, na novela A Favorita? Que não torceu pelo vilão interpretado pelo ator Gabriel Braga Nunes, no folhetim Insensato Coração e pela bela Clara, de Passione? Pois, então, tudo está em reprise, agora. A bola da vez é a maléfica Carminha, vivida brilhantemente pela atriz Adriana Esteves.
            Mas, não só de vilões vive a preferência do grande público. A garotinha Rita, interpretada pela atriz mirim Mel Maia. Fez e faz o povo idolatrá-la. Afinal, ela estava na corda bamba da bondade e da ira. A vingança que aflorava dentro de suas entranhas lhe fez ficar de pé, buscar a sobrevivência e alimentou a sua alma. Traça um objetivo que deverás concretizar. E, assim, nasce a anti-heroína das telinhas Globais. Que viverá o drama da plena vingança ou da vivência do belo amor, eterno amor da infância.
            Mas na verdade, o povo adora a maldade, a vilania. É impressionante como esse tipo de personagem vem ganhando visibilidade na mídia brasileira. Antes, o mocinho e a mocinha eram os vencedores dentre os melhores da dramaturgia; agora, são eles: os vilões que além de ganharem a adoração do público, também, abarcam todas as premiações. 
            Aí, fico eu me perguntando: será que o nosso dia a dia não é o suficiente para que nós ainda venhamos a torcer pelas as ações vitoriosas dos perversos maldosos da ficção? E por que os vilões do BBB não são vencedores? Claro que alguns chatos, porres, ridículos etc., já chegaram a levar o grande prêmio em dinheiro. Porém, ainda são os bonzinhos que levam a melhor. Mas, pensando bem, o vencedor da 12ª edição desse reality show não era lá esse Santo todo não. Podemos até classificá-lo como anti-herói. Assim como todos que ali estavam. Contudo, bem diferente de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Tirando os mafiosos, os malvados e selvagens, que foram cruéis e calculistas. Ou seja, a população terráquea está passando por uma transformação de caráter, de valores... E o que sobrará desse povo? A vilania de um vilão merecedora de um Oscar. E por que ficamos tão indignados com os políticos corruptos? E por que ficamos curiosos para ver uma tragédia? Para saber quem matou quem? Porém, ficamos horrorizados quando um ser perverso faz uma barbaridade com outra pessoa em nossa cidade.
            Aí, então, saímos em passeata pedindo por clemência, por segurança, por justiça. Todavia, somos incapazes de pegarmos o nosso controle remoto e mudar de canal. Entretanto, não ficamos horrorizados quando compramos um CD ou DVD pirata e presenteamos o nosso filho. É um DVD de péssima qualidade, com um filme extremamente violento e sangrento. Mas, quem se importa com isso! Eu estou em minha casa. Dentro de quatro paredes com a minha família. Compro o que quero e assisto o que eu gosto.
            Em suma, os dias passam e os anos também. A violência se alastra e os vilões magnatas se proliferam nas telinhas e telonas. E nossos filhos causam o maior terror nas ruas. Nós, pais, os protegemos da injustiça dos conscientes justos. Enquanto outros se perguntam onde eles erram na educação dos moleques. Sim! Moleques. Foram o que os cidadãos que eram o futuro mundial se tornaram. Moleques, em seu sentido pejorativo. Salve! Salve! 
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