Novela da Rede Globo



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Por Ale Rocha . 18.02.11 - 13h53

Insensato telespectador

O Ministério da Justiça está de olho em “Insensato Coração”. Segundo reportagem publicada no “Jornal da Tarde”, o Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação recebeu duas denúncias sobre a novela. Os telespectadores alegaram que, no horário da trama, exibida pela Globo a partir das 21h10, ainda há crianças abaixo de 12 anos na sala. Um deles afirmou que o folhetim banaliza o sexo.
É verdade que “Insensato Coração” aposta em cenas quentes e barracos para ganhar audiência. No ar há pouco mais de um mês, a novela registra apenas 33 pontos no Ibope, índice considerado baixo pela emissora. São freqüentes as cenas de sexo protagonizadas por André (Lázaro Ramos), que afirma que não repete mulher na cama. Discussões também são freqüentes. Em um das mais intensas, Raul (Antônio Fagundes) flagrou sua mulher, Wanda (Natália do Vale), na cama com o seu irmão, Umberto (José Wilker). Foi uma sucessão de murros e xingamentos: “canalha”, “medíocre” e “vadia”.
Diante das denúncias, o Ministério da Justiça ficará alerta. Se notar exagero nos diálogos e incentivo a violência, a classificação pode subir para 14 anos. Assim, “Insensato Coração” só poderia ser exibida às 22h.
A patrulha sobre a trama de Gilberto Braga é mais um movimento para tornar a teledramaturgia brasileira ainda mais careta. Não bastam apenas as decisões preconceituosas e retrógradas da Globo, como a carta onde a emissora declarou que não haverá beijo gay em suas novelas.
Os telespectadores e parte da crítica insistem em transformar a teledramaturgia em algo insípido e estéril, permeado apenas de atitudes moralmente positivas – como se a moral fosse um conceito estanque e monótono.
As denúncias apresentadas ao Ministério da Justiça refletem o que acontece diariamente em milhares de domicílios. Muitas famílias negligenciam a educação dos filhos ou, pior, transferem essa responsabilidade integralmente para o Estado. Se há discordância do que é exibido na televisão, por que se expor ou submeter crianças a isso? Quem possui o controle remoto é o responsável pelo conteúdo que assiste e compartilha.
Já critiquei Gilberto Braga por aqui. As tentativas de imprimir realismo à “Insensato Coração” com cenas de sexo, discussão e violência não me surpreendem. Ele já fez isso, com sucesso, em “Dancin’ Days”, “Vale Tudo” e “O Dono do Mundo”, por exemplo.
Ricardo Linhares, que assina a trama com Gilberto Braga, defendeu as cenas quentes e os barracos. “Qualquer pré-adolescente de 12 anos costuma falar palavras muito mais fortes do que ‘vagabunda’”, declarou ao “Jornal da Tarde”.
Ele está correto. O problema de “Insensato Coração” não é esse. Há um comodismo dos autores, especialmente de Gilberto Braga. Ele repete tramas anteriores, como “Celebridade” e “Paraíso Tropical”. O autor, revolucionário no passado, hoje é reacionário, apresentando personagens e situações com poucas nuances, quase todas divididas entre o certo e o errado e o mocinho e o bandido.
Patrulhado, Gilberto Braga está contribuindo para aqueles que querem apenas a dicotomia na telinha. Espero que o autor imprima realismo não apenas com cenas de sexo, discussão e violência. Elas serão válidas apenas se romperem o filtro moral pelo qual passa comportamentos presentes na sociedade.
Sem personagens interessantes e com profundidade, que vão além de situações como o bem e o mal, as cenas quentes e os barracos se tornam apenas apelo fácil para fisgar a audiência. Afinal, são assuntos que sempre atraíram o telespectador.
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